"Internet Players versus Telcos: Mundos em Colisão" - Pierre Gein

Está em: Imprensa

No final dos anos 90, a qualidade dos serviços VoIP (Voice over Internet Protocol) era mais parecida com os walkie-talkie da nossa infância do que com uma verdadeira comunicação telefónica. Nos últimos anos, com a chegada do Dialpad, do Skype e de outros, a qualidade destes serviços melhorou, permitindo não só realizar chamadas de boa qualidade, como fazê-las a preços muito competitivos, se não mesmo grátis. Já não é novidade fazer uma conferência telefónica com colegas utilizando este tipo de comunicação ou falar com familiares que se encontram do outro lado do mundo.

De acordo com um estudo recente da Capgemini, em 2009 os telconet (operadores de telecomunicações via Internet) irão ‘roubar’ cerca de 10% das receitas dos serviços de voz da rede fixa dos operadores de telecomunicações tradicionais (telcos).

Na actual lógica de redução de preços, diferenciação no tratamento dos clientes e disponibilização de serviços mais inovadores, os operadores de telecomunicações têm dificuldade em responder ao desafio imposto pelos novos intervenientes do mercado. Isto deve-se ao facto de estes dois mundos terem modelos de negócio bastante diferentes:

  • Modelo de receita e custo
    Actualmente, a maior parte das receitas dos operadores tradicionais são derivados da assinatura mensal ou outras taxas. No modelo telconet, a maior parte das receitas provém da publicidade;
  • Oferta
    A oferta tradicional está estruturada em torno do equipamento (telemóvel, telefone fixo, etc...). Pelo contrário, os serviços dos telconet estão disponíveis para qualquer equipamento (computador, telemóvel, PDA, etc...) com acesso à Internet;
  • Clientes
    No modelo tradicional, os clientes estão ligados à localização das operações (rede física). Para os telconet, basta ter acesso à Internet para ser cliente.
  • Activos
    Os telcos utilizam a própria rede para controlar a relação com o cliente. Em oposição, para os telconet, a marca é o activo mais importante para reter os clientes.

Para conseguir mudar deste paradigma e competir com os baixos custos dos telconets, os operadores de telecomunicações tradicionais têm que repensar a utilização e finalidade dos seus actuais portais para atrair clientes e gerar receitas a partir da publicidade. Entre 2001 e 2004, a Yahoo! aumentou a sua base de clientes em 80%, de que resultou num aumento de 160% em receitas associadas à publicidade on-line. O “online advertising revenue” e o “loyal online customer base” são alguns dos indicadores que permitem medir o sucesso destas mudanças.

Um outro canal importante de aumento da base de clientes são os portais dos operadores tradicionais. Os portais que são actualmente utilizados são quase exclusivos para os clientes que estão a pagar os serviços, funcionando como um self-service dos clientes actuais. O desafio está em reorientar a estratégia do portal para atrair e reter novos clientes, os quais, uma vez registados, podem ser alvo de campanhas publicitárias específicas. Para conseguir responder a este desafio, o “look & feel”(aspecto) e os serviços propostos devem estar um passo à frente dos telconet, oferecendo serviços grátis inovadores (por exemplo, vídeo entre plataformas tecnológicas diferentes, blogging PC/móvel,  etc…).

Nas primeiras dez semanas de 2006, o Google lançou 11 novos serviços, 3 versões de produtos para hardware diferentes, assinou 4 alianças e adquiriu uma empresa… 

Estas aplicações e serviços inovadores, que são neste momento os faróis da onda Web 2.0  - como os Blogs, Digital Content Management, Social Networking - contêm também outras áreas menos mediáticas como Music & Podcast ou Personal Information Sharing que poderão ser alvos privilegiados de compra para dinamizar os portais actuais.

No caso dos operadores da rede móvel, o estudo da Capgemini não considera que os telconets representem uma ameaça a médio prazo, tendo em conta a pouca adesão das iniciativas de rede WiFi a grande escala (nível das cidades). No entanto, para começar a marcar o passo, os telcos têm a oportunidade de entrar no mercado da publicidade para os equipamentos móveis, por exemplo nos motores de busca ou aplicações específicas como disponibilização de resultados desportivos.

No contexto do mercado nacional, há um claro entusiasmo do público para estes novos serviços, pelo que é essencial, com a mudança prevista no sector das telecomunicações, começar já a abordar estes desafios.

Pierre Gein
Senior Manager - Capgemini
Publicado em: Semanário Económico - 28/06/2006