"A Evolução das Telecomunicações na Europa e Portugal Pós-OPA" - Carlos Rydin

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Os sinais que nos chegam da Europa indicam que podemos assistir a uma significativa alteração nos modelos de negócio e nos players, em relação à estrutura sob a qual o mercado tem vivido nos últimos 5 a 10 anos. Em Portugal, do nosso ponto de vista, a OPA ao Grupo PT pela Sonaecom – independentemente do desfecho que ocorra – vai acelerar esta mudança para, na prática, colocar o sector ao par do que ocorre nas geografias mais avançadas. Neste artigo, incidimos a nossa análise no que consideramos possível prever para o mercado Europeu, na perspectiva de que a OPA criará as condições de mercado e a dinâmica dos novos players para que mudanças similares ocorram em Portugal. 

 

O Mercado Europeu poderá ser drasticamente diferente daqui a 3 anos

A actual estrutura do mercado das telecomunicações Europeu encontra-se sob a pressão de 5 forças:

  • Novos entrantes, com destaque para os Internet players e os fundos de investimento
  • Players saindo do mercado
  • Consolidações
  • Diferentes tipos de diversificação
  • Novas tecnologias disruptivas dos actuais modelos de negócio
 

Durante os últimos anos, as taxas de crescimento das receitas de telecomunicações nos segmentos do móvel e da banda larga têm vindo a decrescer. A voz no serviço fixo tem continuamente perdido receitas a favor da troca fixo-móvel. A voz sobre Internet (VoIP) tem crescido acentuadamente, muito acima das expectativas dos analistas, criando aínda mais pressão sobre a voz no fixo. As receitas de voz no móvel, por outro lado, também estão sob a crescente pressão, devido à elevada penetração e à redução de preços. Por último, o aparecimento de soluções disruptivas de banda larga com acesso via rádio (WiMAX, redes mesh por WiFi) apresentam-se como reais alternativas aos serviços prestados pelos operadores de rede fixa e móvel, no segmento do mercado do acesso à Internet, evoluíndo mais tarde para a voz e a TV.

 

A ausência de perspectivas de crescimento dos operadores tradicionais tem criado um significativo impacto nas suas capitalizações bolsitas, que têm continuamente apresentado desempenhos piores do que o mercado e do que outros sectores concorrentes (por exemplo, as utilities). Como consequência, tornam-se alvos naturais de aquisições e consolidações, nomeadamente por via da recente entrada de fundos de investimento internacionais nas telecomunicações. No último ano, estes fundos têm aumentado os seus investimentos em telecomunicações (cerca 35% das aquisições na Europa em 2005). Exemplos são a TDC (Apex Partners, Providence, KKK), Wind (Weather Investments) e Eircom (Babcock & Brown).

 

Curiosamente, uma observação mais atenta dos mercados Europeus denota que existem operadores alternativos com notáveis desempenhos bolsistas nos últimos 12 meses, como por exemplo a Tele2 (40% de crescimento), Virgin Mobile (80%), Fastweb (30%) e a extraordinária Iliad/Free (220%, com a espetacular capitalização bolsista superior a 6 vezes as vendas anuais). Estes excelentes desempenhos parecem resultar da crescente quota de mercado que têm consistentemente adquirido aos operadores incumbentes através, por exemplo, do aumento da penetração da desagregação do lacete local no ADSL ou do crescente volume de tráfego encaminhado por pré-selecção.

 

Alguns incumbentes Europeus têm, contudo, conseguido defender as suas receitas e rentabilidade recorrendo à diversificação dos seus negócios, por exemplo por via da expansão em mercados mercados emergentes (Telenor), da consolidação das operações fixas e móveis (KPN) e de inovadoras mudanças nos modelos de negócio (BT).

 

Depois do colapso das dot-com em 2001, poucas perspectivas ficaram que defendessem, na altura, a sustentabilidade dos modelos de negócio baseados nos serviços on-line. Contudo, nos últimos anos, esta situação alterou-se significativamente, com crescente procura destes serviços. Se por um lado, o número de utilizadores da Internet ganhou massa crítica, globalmente duplicando de cerca de 500 milhões em 2001 para mil milhões em 2005, por outro, a emergência da banda larga melhorou a “experiência do utilizador”, com o resultado de que cada vez mais pessoas utilizam a Internet por mais tempo, para mais serviços (consulta de informação e notícias, email, instant messaging, jogos, etc). Este crescimento está a implicar a entrada dos players do on-line noutros segmentos de negócio, como por exemplo o significativo sucesso na voz fixa através de VoIP no Skype, Yahoo! e MSN, que irão tentar repetir na voz móvel.

 

O tempo presente é o momento para importantes decisões estratégicas para a maioria dos operadores – incumbentes ou alternativos, fixos ou móveis. As estratégias que referimos enquadram-se no contexto dos mercados Europeus, mas aplicam-se igualmente aos players resultantes do processo da OPA sobre o Grupo PT. Não bastará alterar a estrutura accionista do principal grupo de telecomunicações Português. Será necessário enquadrar os players emergentes do pós-OPA nas mesmas alternativas estratégicas que se colocam presentemente à maioria dos operadores Europeus, de forma a que o panorama do mercado Português se modifique e que os clientes finais sejam beneficiados com melhores serviços, com inovação e a preços competitivos.

 

As principais opções estratégicas a considerar no presente quadro dos mercados Europeus podem ser esquematicamente representadas como na figura 1.

 

 

Figura 1

 

 

Ilustramos algumas destas opções através de exemplos actuais.

 

Diversificação e procura de novas fontes de receitas

Em 2005, a BT obteve cerca de 25% das receitas a partir de um consistente portfolio de serviços de comunicações, sistemas de informação e serviços de outsourcing desenhado para o segmento empresarial. Tem apresentado um crescimento anual de 20%, ao longo dos últimos 3 anos. A TV sobre IP deverá crescer na Europa ao ritmo de 75% por ano, nos próximos 4 anos; por exemplo, no caso da Fastweb este serviço já representa 20% das receitas, e na Iliad/Free 12%.

 

Expansão para países com elevados crescimentos

Durante os próximos 4 anos, a Ásia representará mais do que 50% dos novos assinantes do serviço móvel. O mercado móvel do Norte de África também continuará a crescer significativamente nos próximos 3 anos.

 

Consolidação no próprio país

Durante 2005, o volume de fusões e aquisições no mundo cresceu 44% para 404 biliões de Euros, quase ao nível de 1999-2000. Internacionalmente, a Telefónica dominou ao adquirir a O2 e a Cesky Telecom, mas ao nível doméstico ocorreram importantes aquisições com o objectivo de consolidar as operações (NTL / Telewest, Ono / Auna, Deutsche Telekom / tele.ring).

 

Racionalização e dramáticos cortes nos custos

A migração para uma rede totalmente baseada em IP irá permitir à Telecom Italia reduzir em 60% os seus custos operacionais, enquanto que a BT irá poupar 1.5 biliões de Euros anualmente. As reduções de pessoal continuam na ordem do dia, em especial nos incumbentes (por exemplo, 32.000 empregados na DT; 17.000 na FT), ao mesmo tempo que adoptam soluções de offshoring e outsourcing.

 

Criação de novas barreiras à entrada

Actualmente, muitos operadores procuram novas oportunidades competitivas através da adopção alargada de fibra no lacete local – por exemplo a Belgacom com 46% de cobertura em 2006, ou a NTT (Japão) com 95% de cobertura em 2010.

 

Exploração de novos modelos de negócio

À semelhança dos Internet players, também os operadores devem explorar novos modelos de negócio, tais como a publicidade e a voz sobre IP. Os operadores móveis podem encontrar novas fontes de receita nos operadores virtuais.

 

 

Naturalmente, é impossível prever o que se irá passar na sequência da OPA e da eventual implementação dos remédios definidos pela Autoridade da Concorrência, mas podemos afirmar que estaremos perante um processo em que os novos players terão que considerar e implementar estratégias que os tornem mais fortes e mais competitivos.

 

Carlos Rydin
Principal Capgemini Portugal
Comunicações – 15/10/06