- Artigos de Opinião
- Artigos de Opinião 2006
- "A Evolução das Telecomunicações na Europa e Portugal Pós-OPA" - Carlos Rydin
- "eGov em Portugal apresenta uma retoma, mas continuamos a necessitar de ser mais rápidos e eficientes no seu desenvolvimento" - Jorge Martins
- "Internet Players versus Telcos: Mundos em Colisão" - Pierre Gein
- "Optimizar os investimentos em CRM" - Paula Quelhas
- "Operadores Móveis Virtuais" - Carlos Rydin
- "A Liberalização do Mercado do Gás Natural" - Nuno Pignatelli
- "Reduzir o TCO em SAP: o segredo está na Eficácia" - Nuno Almeida
- Artigos de Opinião 2006
Os sinais que nos chegam da Europa indicam que podemos assistir a uma
significativa alteração nos modelos de negócio e nos players, em relação
à estrutura sob a qual o mercado tem vivido nos últimos 5 a 10 anos. Em
Portugal, do nosso ponto de vista, a OPA ao Grupo PT pela Sonaecom –
independentemente do desfecho que ocorra – vai acelerar esta mudança para, na
prática, colocar o sector ao par do que ocorre nas geografias mais avançadas.
Neste
artigo, incidimos a nossa análise no que consideramos possível prever para o
mercado Europeu, na perspectiva de que a OPA criará as condições de mercado e
a
dinâmica dos novos players para que mudanças similares ocorram em
Portugal.
O Mercado Europeu poderá ser drasticamente
diferente daqui a 3 anos
A actual estrutura do mercado das telecomunicações Europeu encontra-se
sob a pressão de 5 forças:
- Novos
entrantes, com destaque para os Internet players e os fundos de
investimento
- Players saindo do
mercado
- Consolidações
- Diferentes
tipos de diversificação
- Novas
tecnologias disruptivas dos actuais modelos de negócio
Durante os últimos anos, as taxas de crescimento das receitas de
telecomunicações nos segmentos do móvel e da banda larga têm vindo a decrescer.
A voz no serviço fixo tem continuamente perdido receitas a favor da troca
fixo-móvel. A voz sobre Internet (VoIP) tem crescido acentuadamente, muito
acima das expectativas dos analistas, criando aínda mais pressão sobre a voz no
fixo. As receitas de voz no móvel, por outro lado, também estão sob a crescente
pressão, devido à elevada penetração e à redução de preços. Por último, o aparecimento
de soluções disruptivas de banda larga com acesso via rádio (WiMAX, redes mesh
por WiFi) apresentam-se como reais alternativas aos serviços prestados pelos
operadores de rede fixa e móvel, no segmento do mercado do acesso à Internet,
evoluíndo mais tarde para a voz e a TV.
A ausência de perspectivas de crescimento dos operadores tradicionais tem
criado um significativo impacto nas suas capitalizações bolsitas, que têm
continuamente apresentado desempenhos piores do que o mercado e do que outros
sectores concorrentes (por exemplo, as utilities). Como consequência,
tornam-se alvos naturais de aquisições e consolidações, nomeadamente por via da
recente entrada de fundos de investimento internacionais nas telecomunicações. No último ano, estes fundos têm aumentado os
seus investimentos em telecomunicações (cerca 35% das aquisições na Europa em
2005). Exemplos são a TDC (Apex Partners,
Curiosamente, uma observação mais atenta dos mercados Europeus denota que
existem operadores alternativos com notáveis desempenhos bolsistas nos últimos
12 meses, como por exemplo a Tele2 (40% de crescimento), Virgin Mobile (80%),
Fastweb (30%) e a extraordinária Iliad/Free (220%, com a espetacular
capitalização bolsista superior a 6 vezes as vendas anuais). Estes excelentes
desempenhos parecem resultar da crescente quota de mercado que têm consistentemente
adquirido aos operadores incumbentes através, por exemplo, do aumento da
penetração da desagregação do lacete local no ADSL ou do crescente volume de
tráfego encaminhado por pré-selecção.
Alguns incumbentes Europeus têm, contudo, conseguido defender as suas
receitas e rentabilidade recorrendo à diversificação dos seus negócios, por
exemplo por via da expansão em mercados mercados emergentes (Telenor), da consolidação
das operações fixas e móveis (KPN) e de inovadoras mudanças nos modelos de
negócio (BT).
Depois do colapso das dot-com em 2001, poucas perspectivas ficaram
que defendessem, na altura, a sustentabilidade dos modelos de negócio baseados
nos serviços on-line. Contudo, nos últimos anos, esta situação alterou-se significativamente,
com crescente procura destes serviços. Se por um lado, o número de utilizadores
da Internet ganhou massa crítica, globalmente duplicando de cerca de 500
milhões em 2001 para mil milhões em 2005, por outro, a emergência da banda
larga melhorou a “experiência do utilizador”, com o resultado de que cada vez
mais pessoas utilizam a Internet por mais tempo, para mais serviços (consulta
de informação e notícias, email, instant messaging, jogos, etc).
Este crescimento está a implicar a entrada dos players do on-line
noutros segmentos de negócio, como por exemplo o significativo sucesso na voz
fixa através de VoIP no Skype, Yahoo! e MSN, que irão tentar repetir na voz
móvel.
O tempo presente é o momento para importantes decisões estratégicas para
a maioria dos operadores – incumbentes ou alternativos, fixos ou móveis. As
estratégias que referimos enquadram-se no contexto dos mercados Europeus, mas
aplicam-se igualmente aos players resultantes do processo da OPA sobre o
Grupo PT. Não bastará alterar a estrutura accionista do principal grupo de
telecomunicações Português. Será necessário enquadrar os players
emergentes do pós-OPA nas mesmas alternativas estratégicas que se colocam
presentemente à maioria dos operadores Europeus, de forma a que o panorama do
mercado Português se modifique e que os clientes finais sejam beneficiados com
melhores serviços, com inovação e a preços competitivos.
As principais opções estratégicas a considerar no presente quadro dos
mercados Europeus podem ser esquematicamente representadas como na figura 1.
Figura 1
Ilustramos algumas destas opções através de exemplos actuais.
Diversificação
e procura de novas fontes de receitas
Em 2005, a BT
obteve cerca de 25% das receitas a partir de um consistente portfolio de serviços
de comunicações, sistemas de informação e serviços de outsourcing desenhado
para o segmento empresarial. Tem apresentado um crescimento anual de 20%, ao
longo dos últimos 3 anos. A TV sobre IP deverá crescer na Europa ao ritmo de
75% por ano, nos próximos 4 anos; por exemplo, no caso da Fastweb este serviço
já
representa 20% das receitas, e na Iliad/Free 12%.
Expansão para
países com elevados crescimentos
Durante os
próximos 4 anos, a Ásia representará mais do que 50% dos novos assinantes do
serviço móvel. O mercado móvel do Norte de África também continuará a crescer
significativamente nos próximos 3 anos.
Consolidação
no próprio país
Durante 2005, o
volume de fusões e aquisições no mundo cresceu 44% para 404 biliões de Euros,
quase ao nível de 1999-2000. Internacionalmente, a Telefónica dominou ao
adquirir a O2 e a Cesky Telecom, mas ao nível doméstico ocorreram importantes
aquisições com o objectivo de consolidar as operações (NTL / Telewest, Ono /
Auna, Deutsche Telekom / tele.ring).
Racionalização
e dramáticos cortes nos custos
A migração para
uma rede totalmente baseada em IP irá permitir à Telecom Italia reduzir em 60%
os seus custos operacionais, enquanto que a BT irá poupar 1.5 biliões de Euros
anualmente. As reduções de pessoal continuam na ordem do dia, em especial nos
incumbentes (por exemplo, 32.000 empregados na DT; 17.000 na FT), ao mesmo
tempo que adoptam soluções de offshoring e outsourcing.
Criação de
novas barreiras à entrada
Actualmente,
muitos operadores procuram novas oportunidades competitivas através da adopção
alargada de fibra no lacete local – por exemplo a Belgacom com 46% de cobertura
em 2006, ou a NTT (Japão) com 95% de cobertura em 2010.
Exploração de
novos modelos de negócio
À semelhança dos Internet
players, também os operadores devem explorar novos modelos de negócio, tais
como a publicidade e a voz sobre IP. Os operadores móveis podem encontrar novas
fontes de receita nos operadores virtuais.
Naturalmente, é
impossível prever o que se irá passar na sequência da OPA e da eventual
implementação dos remédios definidos pela Autoridade da Concorrência, mas podemos
afirmar que estaremos perante um processo em que os novos players terão
que considerar e implementar estratégias que os tornem mais fortes e mais competitivos.
Carlos Rydin
Principal
Comunicações – 15/10/06
