"Tecnologias Disruptivas" - Carlos Rydin

Está em: Imprensa

Potenciais Ameaças aos Operadores de Telecomunicações Incumbentes na Banda Larga

O que têm em comum a dicotomia entre a voz sobre IP (VoIP) e a telefonia fixa; ou o ADSL versus o RDIS; ou as câmeras digitais como substituto do filme fotográfico; ou mesmo o PC e o computador mainframe? As primeiras são tecnologias que colocaram os mercados estabelecidos das segundas em “disrupção”, ameaçando as empresas que delas obtêm lucros. Neste artigo, serão analisadas duas tecnologias de comunicações em banda larga que poderão representar, no futuro, ameaças para os operadores estabelecidos:

  • Mesh Networks - redes em que cada nó e cada ponto de acesso podem comunicar entre si, sem a necessidade de encaminhar o tráfego pela central do operador;
  • Powerline - Banda larga transmitida pela rede eléctrica, disponível nas normais tomadas eléctricas.

As tecnologias disruptivas são soluções radicalmente novas e não apenas melhorias de produtos existentes. Os incumbentes que exploram os mercados estabelecidos têm dificuldade em as adoptar no início do seu ciclo de vida, devido ao efeito de custos afundados nas tecnologias já instaladas, à canabilização os produtos já estabelecidos e geradores de receita, bem como à reduzida rentabilidade e dimensão dos segmentos-alvo iniciais.

Mesh Networks

Estas redes exploram, em toda a extensão, o paradigma da comunicação peer-to-peer . Cada terminal, para além de enviar os seus próprios dados, pode actuar como um repetidor ou um router , retransmitindo dados de outros terminais. Todas as comunicações entre terminais realizam-se pelo ar, até que finalmente os dados são entregues a uma central do operador, que os transmite à Internet. Em oposição, nas redes convencionais, todos os dados são encaminhados para a central, que os recebe e transmite para os respectivos terminais. Numa configuração de rede mesh , uma porção significativa do tráfego é retirado da rede do operador incumbente, que explora a central, reduzindo consequentemente as receitas.

Estas redes são independentes do tipo de acesso via rádio e podem utilizar tecnologias como WiFi, Bluetooth, entre outras. Dois exemplos de operadores mesh , a HotSpot Amsterdam e a Telecom Ottawa, exploram comercialmente o serviço utilizando WiFi. Esta tecnologia possibilita, a um custo reduzido, velocidades de transmissão elevadas, 3 a 6 vezes superiores ao cabo ou ADSL (12 a 15 vezes mais quando comparadas com uma rede 3G/UMTS).

A inexistência de regulação, os reduzidos custos de investimento e de operação, a facilidade de instalação e até a resiliência da própria rede, representam fracas barreiras à entrada, que novos operadores poderão aproveitar para desafiar os incumbentes fixos e móveis. Por exemplo, a HotSpot Amsterdam lançou o serviço WiFi em Agosto de 2004, cobrindo o centro da cidade com cerca de 60 nós em configuração mesh , instalados em três meses, por um investimento inicial de apenas €200.000. A tecnologia permite também a criação de redes privadas ou comunitárias, em condomínios ou municípios.

Para além da redução de tráfego acima mencionada, os operadores incumbentes que explorem serviços WiFi e 3G/UMTS, poderão ter que competir com uma alternativa de baixo custo, oferecendo serviços de banda larga verdadeiramente móvel, em que os utilizadores não necessitam de procurar um hotspot WiFi nem são penalizados pela congestão das redes sem fios tradicionais. Os reduzidos custos de investimento e de operação de uma rede mesh criam pressão adicional nos preços, reduzindo as margens de todos incumbentes, incluindo os operadores de ADSL e cabo.

Powerline

O elevado valor para o cliente faz da banda larga powerline uma tecnologia potencialmente disruptiva. Recentemente, nos EUA, as principais barreiras impostas pelo regulador norte-americano ao desenvolvimento do powerline foram removidas, o que imprimiu um interessante fomento da actividade em torno desta tecnologia. Na União Europeia, a pressão da normalização e das políticas decorrentes do desenvolvimento tecnológico deverão conduzir a importantes medidas de promoção desta tecnologia no espaço Europeu.

Para as empresas de distribuição eléctrica, a instalação de capacidade de transmissão de dados em banda larga nas redes eléctricas proporciona reduções de custo muito relevantes, a uma escala muito mais significativa do que as receitas de exploração de um serviço de banda larga powerline . Por exemplo, as leituras de consumo de electricidade poderão ser realizadas sem recurso a deslocações de pessoal. Fontes da indústria estimam que o valor destas poupanças é 10 a 15 vezes superior ao valor gerado pelas receitas de exploração de um serviço de powerline .

Considerando, por outro lado, as potenciais obrigações resultantes da progressiva pressão dos reguladores de energia no sentido de abrir as redes à concorrência, e de proporcionar meios eficientes de medição do consumo eléctrico, não será estranho verificar, durante os próximos anos, a crescente tendência para as empresas de distribuição eléctrica instalarem, nas suas redes, capacidades de transmissão de dados em banda larga.

Para o cliente final, o powerline apresenta importantes vantagens sobre outras tecnologias: cobertura mais elevada, verdadeira capacidade plug-and-play , velocidade de transmissão superior ao ADSL/cabo, possibilidade de ligação a diversos aparelhos, tais como electrodomésticos, telefones, alarmes, etc. Durante os próximos dois anos, esperam-se novos desenvolvimentos tecnológicos que permitirão velocidades até aos 120Mbit/s.

Do lado da oferta, assinalam-se até à data algumas explorações comerciais, nos EUA e em Espanha, enquanto que praticamente todas as eléctricas têm realizado projectos piloto. Os resultados atingidos até agora indicam uma tendência para oferecer pacotes de serviços, combinando Internet de banda larga com VoIP, serviços de alarmes de edifícios, jogos, etc.

A concretizar-se, a exploração comercial de serviços baseados em powerline tem o potencial de se constituir como a melhor e mais barata alternativa de fazer chegar aos lares serviços de banda larga, incluindo voz, apresentando-se como uma ameaça muito séria aos operadores incumbentes fixos.


Carlos Rydin
Principal - Capgemini
Publicado em: Semanário Económico - 24/03/2005