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A Administração Pública (AP) tem contribuído para uma imagem de Estado burocrata, mau pagador, com pouco respeito pelos fornecedores e que denota com frequência alguma falta de rumo. Isto resulta de um conjunto de problemas relacionados com os processos de Compras da (AP), como sejam i) a morosidade e complexidade dos processos de contratação, ii) o excessivo peso do critério “preço” nas decisões, iii) insuficientes mecanismos de controlo dos serviços, iv) alguma incapacidade de optimização da despesa, entre outros.
Estas críticas poderão parecer injustas. Mas, em boa verdade, esta é a imagem da Administração Pública percepcionada no exterior - e ela é importante.
Tem-se observado um esforço para melhorar a capacidade dos Organismos em serem ágeis a comprar, através de iniciativas como o Portal www.compras.gov.pt, o Registo Nacional de Fornecedores, a criação de Catálogos Electrónicos, e inclusivamente alterações ao Quadro Legal. São um primeiro passo, não se devendo retirar-lhe importância nem invertê-lo.
Se, por um lado, a Reforma da AP inclui este tipo de iniciativas, que visam melhorar a eficiência nas Compras, por outro lado, inclui um vasto conjunto de acções destinadas a modernizar os serviços públicos, seja na vertente de relacionamento e prestação de serviços aos utentes, seja na vertente de optimização interna, desburocratizando e agilizando a resolução dos processos (ver figura).
Esta aposta obrigará a que as áreas de Compras sejam capazes de apoiar as suas Organizações a encontrarem, dentro e fora de casa, as melhores soluções que lhes permitam modernizar os seus Serviços, e assegurarem a sua correcta implementação e adopção pelos funcionários e utentes.
Para isso é necessário que as áreas de Compras não estejam tão centradas no papel de “compradores”, e que se afirmem junto dos Serviços enquanto aconselhadores de soluções e gestores das relações com os fornecedores.
Isso só será possível conjugando:
i) a fixação de metas de melhoria e optimização nas Compras e nos serviços que presta à Organização,
ii) a revisão das responsabilidades dos colaboradores,
iii) a instituição de processos regulares de trabalho e articulação com as áreas internas, ao nível do planeamento de necessidades, prospecção de soluções, avaliação de fornecedores, etc.,
iv) a tipificação das diferentes categorias de bens e serviços, em função da natureza do tipo de aquisições e da sua importância relativa, e
v) a segmentação dos potenciais fornecedores, em função da sua importância para a Organização, e, em consequência, a determinação do modelo de relacionamento a instituir com os diferentes tipos de fornecedores.
Isto pode parecer um exagero, coisa de consultores, que gostam de complicar.... Então, agora deve-se reestruturar as áreas de Compras - para quê? Se já hoje são capazes de responder aos pedidos das áreas internas com muito maior agilidade que no passado?!
É tudo uma questão de entender que o papel das Compras não deve ser limitado à resposta de pedidos (comprar bens e serviços), mas que pode, e deve, partilhar os objectivos de reforma e modernização com os Serviços, e gerir com visão e estratégia o seu relacionamento com o mundo exterior, parceiros e fornecedores.
Passam a ser áreas sem dúvida mais interessantes, oferecendo maiores desafios de desenvolvimento aos seus colaboradores e contribuindo para a melhoria dos Serviços.
Rui Filipe Alves
Principal - Capgemini
Publicado em:
Semanário Económico - 18-11-2005
