Desafios do mercado das Telecomunicações em Portugal - Carlos Rydin

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A expansão do sector das telecomunicações está directamente relacionada com o desenvolvimento tecnológico, Esta é uma verdade de La Palisse: na última década, vivemos a banalização das comunicações móveis, como forma de suprir as necessidades das comunicações pessoa-a-pessoa; agora, assistimos ao desenvolvimento da Internet de banda larga, proporcionando o acesso rápido e simples a novas formas comunicação na empresa, no trabalho, na escola ou no convívio.

No final da década de 80, Portugal colocou-se na linha da frente do desenvolvimento, apostando na rápida digitalização da sua rede de comunicações. O espírito inovador nas telecomunicações nacionais afirmou-se durante a segunda metade dos anos 90, desta vez nos móveis, com o desenvolvimento de produtos únicos (como o serviço pré-pago), ou o lançamento de novos operadores, através de iniciativas de marketing diversas vezes premiadas internacionalmente.

Contudo, este pionerismo do final do milénio tem-se esbatido nos últimos 3 - 4 anos. Esta situação foi fruto da conjugação de vários factores:

  • Insuficiente grau de liberalização nas comunicações fixas: veja-se, por exemplo, a elevada quota de mercado do operador incumbente 5 anos após a liberalização; ou como a desagregação do lacete local ainda não constitui uma oportunidade para os consumidores tornarem-se clientes dos operadores alternativos. Um sector com um reduzido nível de competitividade não estimula a inovação e o lançamento de projectos que explorem factores diferenciadores.
  • Inconsistência do desenvolvimento de novos projectos na rede fixa, na maior parte lançados sem ter por base a criação de uma oferta de serviços e produtos verdadeiramente atractivos, para além do preço mais reduzido. Esta realidade, aliada à falta de capacidade de investimento, criaram um mercado que o operador incumbente tem, naturalmente, conseguido controlar.
  • “Comoditização” do sector móvel, em que a oferta tem evoluído, em grande parte, pela extensa exploração do factor preço, por via da criação dos mais variados planos de preços. O lançamento de novos serviços tem sido tímido, quase sempre baseado em estratégias ” me too ” ou como consequência da criação de novos produtos pelos fabricantes de terminais e de equipamento de rede. Mesmo o lançamento das redes 3G não parece ser capaz de alterar a presente situação, uma vez que não permitiu até agora a criação de serviços diferenciadores, que os utilizadores estejam dispostos a consumir.

Neste contexto, devemos perguntar-nos sobre que oportunidades e que potenciais projectos ficaram para trás, e quais não foram ainda lançados, em muitos casos com atraso em relação aos nossos parceiros Europeus? Televisão digital terrestre; efectiva desagregação do lacete local; ADSL de débito acima de 1Mb/s e redes WiFi (públicas, privadas e empresariais) são alguns dos exemplos mais evidentes. Perspectivando novas oportunidades, podemos também perguntar como estamos preparados para o WiMAX, a voz sobre IP (VoIP), e para as home gateways . A maioria destes temas não constam, neste momento, nos planos de desenvolvimento de negócio dos operadores. Aliás, parece mesmo que os operadores alternativos, a quem caberia ter a ousadia para explorar novas ideias e criar novos mercados, não colocam estas questões na ordem do dia.

Recentemente, vimos a França entrar definitivamente na era da televisão digital com a oferta de um bouquet de 14 canais abertos, prevendo-se uma cobertura a 70% até ao final de 2006 e sem se falar sequer da obrigação de, em qualquer data, desligar o sinal analógico. Em Portugal, este tema vem sendo sucessivamente adiado, aparentemente colocando Portugal de fora da corrida. Não temos uma indústria de set-top-boxes de sucesso, que merece ser defendida e promovida?

A experiência de outros mercados mostrou que o sucesso das redes WiFi depende da capacidade dos diversos players fecharem acordos de interligação ( roaming ), permitindo aos clientes de uma rede utilizarem os serviços de outra rede, que detenha o ponto de acesso mais próximo do cliente. A situação presente em Portugal é a oposta: o serviço é pouco utilizado, devido à complexidade de obter ligação, apesar do crescente número de PCs com capacidade wireless e à proliferação de redes residenciais. Não poderá o regulador apostar em normalizar esta actividade de modo a permitir que a rede WiFi seja muito mais acessível, criando condições para o lançamento efectivo de um mercado de banda larga sem fios, promovendo no futuro a utilização de novas tecnologias, como o WiMAX?

A utilização de VoIP sobre WiFi é hoje em dia perfeitamente possível, mesmo sem o desconforto de ter que recorrer a um PC ou PDA. Existem no mercado terminais com o formato de um telefone normal, a um custo cada vez mais acessível. E não faltará muito para termos terminais GSM/UMTS e WiFi. A utilização de WiFi para encaminhar tráfego de voz em casa, no escritório e outros locais cobertos pode reduzir as receitas dos operadores móveis em 50%, para esse tipo de chamadas! Uma análise conduzida pela Capgemini concluiu que estes clientes poderíam reduzir em 25% os seus custos em comunicações móveis. Assim sendo, não deveríamos esperar que os operadores fixos alternativos, que se esforçam por promover a sua oferta ADSL, promovam também este tipo de tecnologia e assim consigam explorar um novo mercado?


Carlos Rydin
Principal - Capgemini
Publicado em: Vida Económica - 15/04/2005