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Parte 1
Muito se tem falado sobre RFID (Radio Frequency Identification - IDentificação por Rádio-Frequência) no último ano, pela forma como esta tecnologia poderá revolucionar a gestão das cadeias de abastecimento de todas as indústrias. De facto, esta tecnologia, que já existe desde a Segunda Grande Guerra aquando da sua utilização pela aviação inglesa para evitar “fogo amigo”, só recentemente evoluiu no sentido de ser física e financeiramente usada em aplicações de valorização de negócio e melhoria de serviço ao cliente. No entanto, é importante ter em conta diversos factores que podem constituir obstáculos à implementação desta tecnologia, ou criar falsas expectativas a curto prazo. Neste primeiro artigo, pretende-se apresentar o conceito de RFID, apontar algumas das suas aplicações e introduzir matérias que deverão ser consideradas aquando da implementação desta tecnologia numa Organização. Estas serão mais aprofundadas num segundo artigo.
Definição
Os sistemas RFID são sistemas automáticos de identificação que, usando sinais de rádio-frequência, propiciam a identificação e localização automática de aparelhos electrónicos portadores de dados - etiquetas - que vêm apensos a itens. As etiquetas podem ser detectadas por rádio-frequências a uma distância remota por um leitor, sem a necessidade de contacto físico ou de este estar na linha de “visão” do leitor, pois as rádio-frequências atravessam praticamente qualquer material sólido. Um sistema de gestão computadorizado pode usar a informação recolhida pelos leitores e processá-la de acordo com a aplicação pretendida, como por exemplo a gestão de materiais. Quanto aos códigos de barras, estes permitem o armazenamento de mais informação e não necessitam da intervenção de operadores para a realização da leitura da etiqueta. Adicionalmente, e entre outras vantagens, as etiquetas RFID são mais robustas em condições adversas.
Aplicação
Através da identificação por rádio-frequência já é possível obter uma visibilidade total de uma cadeia logística em tempo real. Assim, será possível obter inventários imediatos e aumentar a traçabilidade dos produtos, reduzindo assim as quebras e perdas ao longo de toda a cadeia logística. Além disso, irá proporcionar um melhor planeamento das operações com base em dados reais. Mas o principal valor acrescentado do RFID é uma clara redução de custos operacionais, obtida pela automatização de processos e reutilização de materiais como as etiquetas e suportes onde são usadas.
A tecnologia RFID pode também ser aplicada em sistemas de autenticação de produtos, de forma a garantir a existência de uma correcta associação entre produtos ou peças, e a rejeição automática de produtos ou peças incorrectas. Assim, ao utilizar etiquetas RFID, os produtos ou peças errados, ou que sejam contrafeitos, serão rejeitados, mesmo quando são cópias fiéis do produto genuíno. Esta aplicação do RFID pode ser usada por questões de segurança, de forma a assegurar que peças ou materiais sensíveis são correctamente montadas ou misturados e evitando-se custos associados à recolha de lotes de produtos como por exemplo na indústria farmacêutica.
Desafios do RFID
Apesar das múltiplas aplicações possíveis e de todas as vantagens existentes para a implementação de tecnologia RFID, ainda há muito trabalho para ser desenvolvido antes do RFID ser adoptado em grande escala e proporcionar um retorno de investimento. Recentemente duas grandes entidades, a Wal-Mart (maior empresa retalhista do mundo) e o Department Of Defence (DOD - Departamento de Defesa dos EUA), compeliram os seus maiores fornecedores a utilizarem etiquetas RFID nas paletes e caixas de produtos a partir de Janeiro de 2005. No entanto, esta exigência não veio acelerar, como era pretendido, a adopção generalizada da tecnologia RFID pelo mercado. As empresas obrigadas a cumprir estas exigências, na sua maioria, limitaram-se a aplicar as etiquetas RFID à saída para os Centros de Distribuição da Wal-Mart e do DOD. Assim, limitaram-se a cumprir a exigência de forma a manterem um grande cliente e não afectarem os seus processos internos, não tendo nenhum ganho interno. E porque é que estas empresas reagiram deste modo às exigências que lhes foram impostas? É que, actualmente, para implementarem um sistema RFID, e obterem um retorno de investimento, os produtores que utilizam a tecnologia RFID e os fornecedores da mesma têm de considerar algumas matérias que se não forem abordadas com êxito podem colocar em risco o sucesso da implementação.
As matérias a considerar são: os custos da tecnologia; a falta de regularização de normas; os problemas tecnológicos que podem afectar a leitura de etiquetas; a análise dos processos existentes; a cooperação e partilha de informação entre parceiros da cadeia; a existência de uma oferta de chips e leitores RFID para responder a uma procura crescente; e a aceitação dos consumidores a questões levantadas sobre a privacidade, problemas ambientais e efeitos para a saúde.
Figura 1: Desafios do RFID
Estes temas serão aprofundados num próximo artigo, assim como o panorama que se antevê para esta tecnologia, que promete revolucionar a gestão de cadeias de abastecimento.
Tiago
Delgado
Consultor - Capgemini
Publicado em: Semanário Económico -
12/01/2005
