"RFID - Os desafios actuais" - Parte 2 - Tiago Delgado

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Na primeira parte deste artigo (publicada na edição de 21/01 deste jornal) apresentou-se o conceito de Identificação por Rádio-Frequência (RFID) - um sistema que usando sinais de rádio-frequência, propicia a identificação e localização automática de etiquetas. Foram também apontadas algumas aplicações de maior potencial, tais como os inventários imediatos ou a traçabilidade dos produtos ao longo de uma cadeia logística. No entanto, quando se pretende implementar um sistema RFID, há certos desafios que devem ser considerados, e neste artigo vamos analisar como podem ser transformados em oportunidades.

Actualmente, ao implementar um sistema RFID, se os desafios associados a esta tecnologia forem abordados com êxito, podem apresentar-se como oportunidades de negócio de que depende o sucesso de implementação, e o respectivo retorno no investimento (ver figura 1).

 Figura 1


Regularização das Normas

As normas que regulam as frequências a utilizar em diferentes aplicações ainda não foram definidas. Enquanto isso não acontecer, a indústria vai permanecer retraída, por receio de “apostar no cavalo errado” ao produzir ou implementar sistemas RFID cuja norma não seja aceite globalmente. A Europa e os EUA aguardam com expectativa a decisão da norma a ser utilizada pela China que, além de ser um dos maiores mercados mundiais, é também o lugar de eleição para a localização das indústrias de manufactura.

Hoje, existem diferentes plataformas de normas. A tendência será para uma unificação global que permita uma interoperabilidade entre sistemas, destacando-se a plataforma da EPCGlobal (organização apoiada pela indústria para o desenvolvimento de normas RFID que prevê que em 2006 se consiga uma harmonização das normas).

Custos da Tecnologia

Actualmente os custos das etiquetas RFID são superiores a 50 cêntimos, dependendo do tipo de etiqueta e volumes de encomenda. Estes valores ainda não compensam a sua utilização ao nível do item em produtos de valor reduzido. No entanto, mesmo quando aplicadas a níveis superiores de acondicionamento, onde já compensa o investimento (caixa ou palete), deverá haver uma análise cuidada quanto ao investimento em outros equipamentos como a infra-estrutura de leitores e sistemas de informação.

Brevemente, a regularização das normas fará aumentar a produção, e as economias de escala obtidas puxarão os preços para baixo. Adicionalmente, o desenvolvimento de tecnologias alternativas como as etiquetas RFID sem chip disponibilizará etiquetas abaixo de um cêntimo.

Factores tecnológicos

Inúmeros factores têm afectado a performance tecnológica em pilotos de RFID. Existem, por exemplo, frequências que são absorvidas pelos líquidos e reflectidas por metais, provocando dificuldades de leitura em certos produtos/ambientes. Por outro lado, é fundamental que as infra-estruturas tecnológicas suportem a enorme quantidade de dados que é enviada por biliões de etiquetas, e que o middleware faça o refinamento da informação, para que a cada aplicação só cheguem os dados necessários.

Existência de uma oferta capaz de responder à procura esperada

A indústria produtora de microchips terá de ser capaz de satisfazer uma necessidade prevista de biliões de etiquetas RFID. Por isso, existe a oportunidade de desenvolver novas tecnologias de produção e avançar com o aperfeiçoamento da tecnologia de etiquetas RFID sem chip. O mesmo poderá observar-se com a oferta de leitores e de soluções de middleware . No entanto, a indústria já se está a dinamizar e surgirão sem dúvida inúmeras soluções, com preços cada vez mais acessíveis.

Reengenharia de Processos e Cooperação Entre Parceiros

As organizações que queiram implementar sistemas RFID deverão apontar para a obtenção de benefícios de longo prazo. Assim sendo, impões-se uma revisão estratégica dos seus processos de negócio e relacionamento com os fornecedores, distribuidores, vendas e clientes. Esta revisão de processos deverá focar os custos totais de implementação de uma infra-estrutura RFID ao longo da cadeia de abastecimento, ponderando-os relativamente aos benefícios percebidos. Será necessário, também, verificar a interligação dos dados obtidos pelo sistema RFID com os processos e aplicações tecnológicas existentes ou a implementar, de forma a se obterem mais valias futuras.

Entre outras vantagens, a colaboração e partilha de informação entre os diferentes parceiros de uma cadeia de abastecimento permitirá aperfeiçoar previsões de venda e planear correctamente produções e transportes de mercadorias.

Aceitação dos consumidores

Para o sucesso da tecnologia RFID é essencial que esta seja compreendida pelos consumidores, de forma a não existirem receios relativos a questões de privacidade, saúde e problemas ambientais, que possam bloquear o uso desta tecnologia. Para isso, é importante a sensibilização dos consumidores relativamente às reais capacidades desta tecnologia.

No que toca à protecção da privacidade, para prevenir possíveis casos de violação da mesma, já existem no mercado chips que podem ser desactivados definitivamente à saída do ponto de venda, e etiquetas que bloqueiam se lidas por leitores não autorizados. Os receios de impacto na saúde humana derivados da utilização de rádio-frequências também são infundados pois, quando emitidas pelas etiquetas, as rádio-frequências são equivalentes aos sinais de rádio que ouvimos. Se devidamente informados, os consumidores saberão com certeza relativizar estas questões...

O uso de componentes não biodegradáveis nos chips poderá originar debates com organizações ambientalistas. Nesta área, a utilização de etiquetas sem chip ou o aperfeiçoamento da tecnologia de produção de chips com elementos biodegradáveis poderá minimizar este efeito.

Concluindo, os desafios ligados à implementação da tecnologia RFID estão a ser rapidamente transformados em oportunidades. Os desenvolvimentos tecnológicos vão conduzir a uma diminuição dos custos relacionados com tecnologia, ao mesmo tempo que se melhora o desempenho dos sistemas RFID. A convergência de normas reguladoras vai conduzir à interoperabilidade de diferentes sistemas RFID à escala mundial. Finalmente, as preocupações relativas ao meio ambiente, saúde e à privacidade do consumidor terão de ser endereçadas com soluções tecnológicas e debates entre todas as partes e que conduzirão a acordos de concertação.


Tiago Delgado
Consultor - Capgemini
Publicado em: Semanário Económico - 11/03/2005