"Profunda mudança nas comunicações" - Carlos Rydin

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Apesar do desânimo e pessimismo que as empresas e o público sentem, no contexto de uma tímida retoma, o sector das TIC ainda vai apresentar um crescimento acima da economia. Sendo claro que o sector nunca regressará aos índices de crescimento de há 5 ou 10 anos, sente-se que os players da banda larga estão a esforçar-se por inovar, criando novos espaços e oportunidades de diferenciação, competindo pelo preço, ou desenvolvendo novos produtos ou bundles.

Ligeiro aumento do share-of-wallet

Do nosso ponto de vista, o share-of-wallet do conjunto de serviços de telecomunicações e media continuará a crescer a um ritmo que estimamos entre os 2% e 5% anuais, de uma forma sustentada, durante os próximos anos. Contudo, este crescimento será acompanhado por uma importante alteração das forças do mercado, em que os operadores incumbentes (no fixo e nos móveis) começarão a sentir novas ameaças, não equacionadas nos anos anteriores. O sinal parece ser, pois, de um novo dinamismo, em que novas ofertas estimularão o consumidor a utilizar mais serviços. Tentando resumir um processo que será certamente complexo, os dados de que dispomos indicam a seguinte evolução durante 2006 e os anos seguintes:

    •  O volume das comunicações de voz continuará a aumentar, mas a redução gradual dos preços compensará este crescimento, resultando que o contributo da voz para o total deverá crescer apenas muito ligeiramente. O churn deverá aumentar, estimulado pela continuada transferência da voz fixa para o móvel e para o VoIP, bem como entre os operadores móveis, em especial se assistirmos ao desenvolvimento dos operadores virtuais (MVNO) e de baixo custo.

    •  O mais relevante contributo para o crescimento do share-of-wallet acontece nas fronteiras da indústria, onde as comunicações por banda larga se aproximam dos media e do entretenimento - aliás, será lícito afirmar que este fenómeno coloca em causa as actuais fronteiras. Neste segmento, o equipamento terminal assume uma importância crucial na criação de valor e na experiência do consumidor.

Novas fontes de receita

Face às recentes ameaças de redução das receitas, os operadores móveis procurarão novas fontes de receita, como por exemplo a video-telefonia e a TV móvel, cuja concretização deverá ocorrer durante 2006. Estimativas recentes apontam, contudo, que as receitas destes serviços não deverão ultrapassar 1% das receitas totais dos operadores móveis, até 2008.

No campo dos operadores de rede fixa, em especial os ISP alternativos ao incumbente, devemos esperar que 2006 marque definitivamente a sua entrada no mercado da imagem, através do lançamento de novos serviços baseados em IP-TV. O operador incumbente será também obrigado a responder.

Experiências recentes de TV sobre DSL, implementadas noutros mercados europeus, apresentam um potencial modesto no aumento das receitas (até ao momento 2% das receitas do operador). Contudo, estamos convencidos que o potencial de receita dos serviços baseados em IP-TV é superior se houver a capacidade de oferecer bundles com acesso à Internet e voz (tradicional ou sobre IP) e, em especial, de explorar uma alargada oferta de pay-TV , cuja implementação em redes baseadas em IP apresenta maiores potencialidades, como se pode verificar no caso do operador italiano Fastweb. Em oposição, o filão do video-on-demand mostra, nos exemplos que conhecemos, uma capacidade limitada de gerar receitas.

Para concretizar as ofertas atrás descritas, torna-se crítica a capacidade de oferecer um equipamento terminal com base totalmente digital, em que um conjunto de características parecem ser essenciais: interactividade, funcionalidade personal video recorder e reduzido custo para o consumidor. O personal video recorder poderá ter impactos significativos na forma como as pessoas consomem serviços de imagem, transformando este consumo do actual modo passivo para ” on demand ”.

Pressão sobre o operador incumbente

Os recentes desenvolvimentos nas comunicações fixas, sobretudo nas iniciativas do regulador e dos operadores alternativos, sugerem claramente que o ambiente competitivo vai intensificar-se. Mas de que forma? Será em 2006 que finalmente os preços dos serviços DSL deverão ficar sobre pressão, à medida que os preços grossistas e as tarifas associadas à desagregação do lacete local se reduzem? Devemos esperar que o gradual crescimento da utilização da VoIP se possa traduzir na redução das tarifas do serviço telefónico tradicional? Veremos em 2006 o surgimento de tecnologias alternativas de acesso em banda larga, nomeadamente o FWA de banda larga, ou mesmo o WiMAX, o powerline ou as mesh networks ? São estas as questões que hoje em dia mais preocupam as administrações dos operadores incumbentes, na perspectiva da dinâmica ilustrada na figura 1.


Figura 1

 

Continuada procura de eficiência e consolidação da indústria

Face à intensificação do ambiente competivo e às transformações no mercado, a eficiência operacional assume maior relevância, em especial nos operadores incumbentes, ao fim e ao cabo as maiores vítimas da crescente pressão sobre os preços e da redução do crescimento das receitas. Para além da continuada redução do número de funcionários, podemos antecipar a crescente utilização de redes IP para transportar todo o tráfego de voz, dados e video, o que já demonstrou apresentar elevado potencial de reduzir os custos de operar a rede.

Como resultado dos programas de redução de custos e da dívida, implementados nos últimos anos, os operadores dispõem actualmente de significativos recursos, que poderão utilizar em grandes aquisições. O cash-flow libertado e a renovada capacidade de endividamento permitem encarar novos cenários, como por exemplo aquisições na Europa de Leste, Ásia, África ou América Latina, ou cenários na Europa Ocidental, como a aquisição da PT pela Telefónica, ou da Orange pela Vodafone.


Carlos Rydin
Principal - Capgemini
Publicado em: Comunicações - 01-11-2005