“Serviços de Saúde: as TI como aposta na qualidade” - Paula Rodrigues

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O envelhecimento da população, as novas tecnologias na saúde e as crescentes exigências e expectativas dos cidadãos têm determinado, nos últimos anos, o aumento da procura dos serviços de saúde. Por seu lado, para fazer face a estas alterações sócio económicas, a oferta, quer em termos de serviços de saúde públicos quer privados, tem vindo a ajustar-se no sentido de proporcionar aos cidadãos a melhoria das acessibilidades, a integração dos serviços de prestação de cuidados, a melhoria da qualidade do serviço e o acesso a programas de auto cuidados, que incluam mais informação e formação sobre aspectos de saúde.

A relação entre as Tecnologias de Informação e o mundo da saúde estreita-se cada vez mais no dia a dia. Hoje não se entende uma prospera gestão na saúde sem um sistema de informação eficiente e que se relacione directamente com o modelo de gestão, constituindo-se como uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento das políticas de saúde. Neste sector, as TI actuam como catalizadores dos processos, mas também os modificam: ao disponibilizar informação integrada e fiável aos profissionais de saúde, e suportando as decisões dos gestores e das entidades reguladoras, as TI permitem criar saúde e bem estar nos utentes.

Do ponto de vista organizacional e operacional, as TI desempenham também um papel crucial na melhoria da eficiência e da eficácia dos prestadores de serviços de saúde. Num contexto cada vez mais exigente do ponto de vista de mercado, os níveis de eficiência traduzem-se pela capacidade das organizações na utilização racional dos seus recursos, na busca permanente da redução dos custos, e na prestação de serviços de elevada qualidade. Os modelos de actuação caminham para a optimização da cadeia de valor através de estruturas integradas, que evoluem de um mercado fechado com reduzidos níveis de desempenho, para um mercado baseado na alta performance, onde também as TI desempenham um papel determinante, passando por diversos estágios de desenvolvimento: integração das aplicações de backoffice , diversificação dos canais de acesso, partilha de informação, telemedicina, integração da informação clínica baseada no processo clínico electrónico e, por fim, utilização dos mais modernos devices na recolha de dados e disponibilização da informação.

Em Portugal, especialmente nos últimos anos, tem sido feito um esforço significativo em investimentos em TI para a área da saúde. Estes investimentos têm sido aplicados maioritariamente para dotar os estabelecimentos públicos de saúde de hardware , software , redes internas e comunicações. Outras iniciativas tiveram lugar como o lançamento do cartão de Utente, o qual foi tornado obrigatório desde o ano 2000. Este cartão, no entanto, não apresenta vantagens concretas de utilização, quer para o Utente, quer para o Serviço Nacional de Saúde, na medida em que ainda não utiliza as funcionalidades potenciadas por um cartão deste tipo - o armazenamento e transporte de informação, o acesso seguro e confidencial a informação do utente, bem como a automatização de tarefas por parte do prestador de serviços de saúde.


Não obstante a validade e oportunidade dos investimentos realizados, continuamos a assistir a uma reduzida cobertura da actividade de prestação de cuidados de saúde (primários e diferenciados) por aplicações “core”, conduzindo à falta de informação fiável e atempada para o desenvolvimento da actividade dos profissionais de saúde e para suporte aos diferentes níveis de gestão. A reduzida cobertura aplicacional dos processos de saúde e a falta de integração das aplicações existentes constituem entraves para a obtenção dos níveis de eficiência e eficácia essenciais para a optimização da cadeia de valor da saúde.

Para quando poderemos pensar no tratamento da informação como um instrumento efectivo e de valor acrescentado na prática médica? Existe um consenso geral sobre as vantagens do processo clínico electrónico, consubstanciadas na interoperabilidade com outros sistemas, na maior segurança e confidencialidade, na diminuição de erros e na melhoria da qualidade e eficiência no processo assistencial. O processo clínico electrónico não é senão o resultado da integração e interacção de várias fontes de informação, incluídas na história clínica electrónica, que tem como resultado um autentico sistema de informação na saúde. Um sistema de informação centrado no processo clínico electrónico estabelece um valor acrescentado sobre os sistemas em papel ou não integrados que se traduzem num conjunto de vantagens inacessíveis com sistemas convencionais:

  • Integração da informação
  • Garantia da confidencialidade
  • Melhoria da acessibilidade, especialmente relevante, dada a dispersão da informação de saúde e a mobilidade dos utentes
  • Apoio à decisão
  • Automatização de tarefas
  • Melhor gestão do arquivo

Prevê-se ainda para os próximos anos, nomeadamente com recurso parcial a apoios comunitários, o investimento de vários milhões de Euros em TI para a saúde. Poderemos esperar da reforma actualmente em curso a definição e operacionalização de uma estratégia concertada para o sistema de informação da saúde, que facilite a integração dos dispositivos já desenvolvidos e que seja compatível com os traços gerais da reforma organizacional e de gestão do Serviço Nacional de saúde? Sem uma estratégia claramente definida, é razoável prever que os grandes investimentos feitos ou planeados não serão convenientemente aproveitados, continuando-se a assistir a um acréscimo da despesa, para resolução de problemas pontuais, que em nada contribuem para o aumento da eficiência e da eficácia dos serviços prestados nem para o desenvolvimento sustentado do sector da saúde.


Paula Rodrigues
Principal - Capgemini
Publicado em: Semanário Económico - 26/11/2004