- Artigos de Opinião
- Artigos de Opinião 2004
- “O rumo da consultoria” - Pedro Rebelo
- “Serviços de Saúde: as TI como aposta na qualidade” - Paula Rodrigues
- "A maturidade do e-Government em Portugal vs Europa" - Henrique Ahnfelt
- "Inovar com Sucesso" - Carlos Rydin
- "O equilíbrio entre a Liberalização e o Desenho do Mercado" - Eduardo Valente
- "Estamos prontos para a reforma da Administração Pública?" - Paulo Saldanha Santos
- "Explorar a Inovação no Sector das Telecomunicações Móveis" - Carlos Rydin
- "ROI e Learning Analytics" - Sónia Rosa
- "O novo departamento de TI: um parceiro de negócios" - Sónia Rosa
- "Os 4 L do Logro - ou a matriz do "Marketing" com a moldura Penal!" - Paulo Morgado
- "Reforma da Administração Pública em curso: a necessidade de superar os potenciais inibidores da mudança" - Rui Filipe Alves
- "Risco operacional - Uma cultura de prevenção e eficiência organizacional" - Jorge Baião
- "Um novo desafio para os consultores" - José Carvalho
- "IPCG - na senda dos valores contemporâneos do consumidor" - Paulo Morgado
- "Informação de Gestão Rapidez e Fiabilidade no Suporte à Gestão e Tomada de Decisão" - Eduardo Ramos
- "Estaremos a explorar devidamente os ERP ?" - Pedro Fragoso
- "A confusão dói - integração já não é um luxo, é necessário" - Henrique Ahnfelt
- Artigos de Opinião 2004
O nº1 do artigo 217º do Código Penal diz, enquadrando o crime de burla, que
“Quem, com intenção de obter para si ou para terceiro enriquecimento ilegítimo,
por meio de erro ou engano sobre factos que astuciosamente provocou, determinar
outrem à prática de actos que lhe causem, ou causem a outra pessoa, prejuízo
patrimonial, é punido com pena de prisão até 3 anos ou com pena de multa”. O que
é que isto tem a ver com Marketing? Nada! Esperemos... É por causa deste
“esperemos” que me proponho dissertar sobre uma possível tipificação, (ou,
antes, dupla exemplificação?) das acções de logro (ou burla). Qual a utilidade?
A de tentar descortinar uma matriz de persuasão similar entre os 4 P e os 4 L...
Assim, ficaríamos com mais um referencial (este de cariz teórico), que não
apenas o legal, para delimitar a fronteira entre o aceitável e o não aceitável
em termos de Marketing e, particularmente, de publicidade. Vamos, então, aos 4
L.
O LUCRO - O primeiro L do Logro baseia-se na exploração do lado
ganancioso das pessoas; aproveita-se da sede de obtenção de lucros fáceis (ou
a
negação do velho ditado que diz que “quando a esmola é grande o pobre
desconfia”)...
- Compra com Venda - Em meados dos anos 90, alguns fiéis foram abordados por
membros da Igreja no sentido de investirem num time-sharing nas Caraíbas.
Segundo se dizia, o investimento era suportado pelas mais altas patentes
religiosas... Algum tempo mais tarde, o New York Daily News dava conta de uma
gigantesca fraude que ascendia a $3 milhões, tendo por base o empreendimento
Playa Bonita cuja obra havia sido abandonada em 1992!...
- Renda e Mentes - Um daqueles amigos que gostam de enriquecer depressa, e que não desconfiam quando a esmola é grande, recebe uma carta vinda, por exemplo, da Nigéria afirmando a necessidade urgente de transferir uma fortuna com origem numa herança para a sua conta bancária - a única que o “ilegal” que se diz nigeriano tem para colocar o dinheiro em Portugal. O nosso Greedy-friend português aceita, a troco da promessa de um fee de 100 mil euros... Antes, porém, tem que incorrer numas despesas - viagens, comissões financeiras, seguros, etc.. Dinheiros - o fee e estes - que nunca mais verá!...
A LIGEIREZA - Através do L de Ligeireza, teoriza-se a tomada de decisão precipitada, baseada em tempos de reflexão demasiadamente curtos...
- Sobre-valorização - Este truque, conhecido nos EUA como Watered Stock,
consiste em inflacionar o peso, ou outro valor percebido, de certos activos,
tendo em vista a sua venda lucrativa. Porquê Watered Stock? Porque
frequentemente “obrigava-se” o gado a beber tanta água quanta lhe coubesse no
estômago, com vista à sua venda logo a seguir, com base no peso... Engraçado o
uso da palavra “Stock”, como se de acções se tratasse...
- Sobre-facturação - O Sr. Manuel acaba de fechar um excelente negócio com um biscateiro que lhe arranja janelas e portas por um preço muitíssimo barato. O contrato, onde consta o orçamento, é rapidamente assinado. Uma semana mais tarde, com portas e janelas desmontadas, chega a má notícia: os materiais novos estão esgotados e é preciso acabar o trabalho depressa. O biscateiro arranja então os materiais ao triplo do preço normal... E este biscateiro até apresentou um orçamento antes; porque o mais normal é que o mesmo nem sequer exista e que a surpresa da conta apareça no fim do trabalho...
O “LOVE” - No L de “Love” explora-se o lado emocional, o lado sentimental das pessoas, que as desvia de decisões mais frias, mais racionais...
- Cara Idade - São três da manhã e a avozinha recebe a terrível notícia que o
seu neto (que ainda por cima tinha ficado à sua guarda), que está incomunicável,
se meteu em sarilhos e necessita de alguém que pague a fiança. A avozinha que
não pode sair de casa, entrega o dinheiro que os supostos “advogados” lhe pedem
e... nunca mais o vê. Do mal o menos, afinal o neto não tinha sido preso...
- Nova Idade - Estes contos do vigário têm sempre origem em meninas bonitas que prometem inolvidáveis momentos de prazer. Depois, ou mesmo ainda durante (...), é que é o pior... Em certos casos o “incontinente” é apanhado pelo “marido” enganado que lhe exige dinheiro para que se esqueça a situação; noutros casos, são as suas roupas e relógio que desaparecem do quartinho onde tinham ficado guardados; noutros casos, ainda, chega a haver casamento, seguido de divórcio - ambos bastante lucrativos...
AS LÂMPADAS (de Aladino) - O L de Lâmpada, como a de Aladino, explora o imaginário de magia existente em cada um de nós e o consequente acordar para a realidade - já com a lâmpada apagada...
- Máquinas de fazer dinheiro - O vigarista acaba de mostrar ao pato uma
máquina de fazer dinheiro: coloca-se uma folha branca de um lado da máquina,
esperam-se doze horas, e... sai uma nota real (a nota é de facto real e já havia
sido colocada dentro da máquina previamente)! A máquina custa 50 mil euros. O
Pato faz as contas: as notas são de 100 euros; se fizer cerca de duas por dia,
são cerca de 200 euros por dia; vezes cem dias, são 20 mil; vezes trezentos
(menos de um ano), está recuperado o investimento. Venha a máquina! Doze horas
depois, nada. Nesse preciso momento, o vigarista está a aterrar no Brasil com
mais 50 mil euros no bolso...
- Banhos de beleza - Emagrecimento, celulite, plásticas, vigor, etc., etc. Como já estou a exceder os caracteres permitidos, chamo apenas a atenção para este tipo de truques que se baseia na expectativa de efeito de um produto (por exemplo, um comprimido) que actua a prazo, mas que afinal, já depois de comprado, não resulta. Os exemplos multiplicam-se, as histórias de pessoas enganadas também; mas até os mais avisados já encomendaram (e continuam a encomendar) produtos mágicos via internet...
Recapitulando: com o Lucro, apanhamos os gananciosos; com a Ligeireza, os apressados; com o “Love”, os turvados; e com as Lâmpadas, os que quando dão conta do logro já se “entalaram”...
Paulo Morgado
Administrador Delegado -
Capgemini
Publicado em: Marketeer - 01/07/04
