É com alguma incerteza e ansiedade que os gestores desenham a estratégia das suas organizações e preparam os orçamentos para o ano que agora se iniciou. A perspectiva de uma estagnação da economia no primeiro semestre de 2002 não nos abandona e, mesmo quando terminamos o dia com notícias animadoras provenientes do mercado norte americano, logo no dia seguinte, aparece algum problema que nos leva de imediato a questionar sobre a validade das teorias macro-económicas que aprendemos na universidade.
Nos dias que correm, é tão comum ouvir-se eminentes economistas a tecer considerações animadoras sobre o futuro imediato da economia, como é ouvir-se outros, com perspectivas cépticas sobre o comportamento da mesma para os próximos seis meses.
Não sou dos que acredita que o 11 de Setembro arrastou consigo uma fonte de problemas de consequências graves para a economia mundial mas, estou absolutamente convencido que há, hoje em dia, uma série de factores que, no mínimo, devem constituir fonte de preocupação para um gestor avisado e prudente. Senão, reflictamos sobre uma série de factos ocorridos no passado próximo.
Há dois anos a problemática do ano 2000 ajudou muitas empresas de TI a desenvolver o seu negócio, através de uma oportunidade absolutamente pontual. O ano passado, a entrada em vigor do Euro teve como consequência um incremento, também ele pontual, de projectos de adaptação de sistemas, com reflexo directo nas empresas de TI e noutros sectores, nomeadamente no sector industrial.
O modelo de “Open Web” está a morrer e as companhias, tal como os accionistas que investiram nas empresas “dot com”, deixaram de acreditar, que o modelo de acesso universal em que a Web se baseava, seja economicamente viável. Essencialmente porque os modelos económicos, que foram construídos com base em receitas de publicidade previstas, falharam e, o conceito de “pagamento por clique”, tem sido difícil de implementar. Mesmo a ajuda da Microsoft ao lançar o conceito de registo único, com o Passport, não foi suficiente para aumentar a confiança neste tipo de transacções.
Por último, um facto que é, talvez, o mais preocupante de todos por reflectir uma tendência do mercado, e que se prende com as constantes notícias de redução de efectivos das companhias. E as notícias que nos chegam têm mostrado que, quer em valor absoluto, quer em valor percentual, são elevados os números referentes a despedimentos ocorridos.
Por tudo isto considero que o ano de 2002 e, sobretudo o primeiro semestre, vai ser, no mínimo, complicado. Estou aliás convencido que muitas empresas e, particularmente as empresas de TI, vão fazer uma verdadeira travessia do deserto. E, é sobre as empresas de TI que vou falar daqui para a frente.
Quando e onde aparecerá o Oásis em muito dependerá da estratégia que as empresas tomem para enfrentar este caminho. Essa estratégia deverá ter contudo em atenção que o mercado vai estar preocupado com a REDUÇÃO, ou com a CONTENÇÃO de custos. Estas aliás, vão ser as palavras chave para 2002.
Não querendo fazer futurologia, eu acredito que em 2002 haverá boas oportunidades de negócio. E, logo no início do ano. Quais são então as áreas onde vai haver procura e o negócio se produzirá a um ritmo normal?
A primeira tem a ver com projectos de Cost Reduction. As empresas vão estar disponíveis para investir em projectos de estratégias e processos de compras (as soluções de e-procurement produzem, segundo estudos da CGE&Y, reduções directas de 5 a 10% no processo de compra), bem como na rentabilidade das infra-estruturas e na optimização da cadeia de distribuição, nomeadamente com a implementação de projectos de supply chain. Também ao nível da produção, com a optimização dos processos produtivos e a optimização de gestão de stocks, se fará sentir uma predisposição das empresas para investir. Finalmente, e neste primeiro contexto, é previsível que as empresas estejam dispostas a optimizar os seus processos administrativos, com incidência na optimização de custos com pessoal e na optimização de processos, área em que aparece naturalmente uma oportunidade para projectos de e-RH.
Num outro enquadramento e, fruto dos fenómenos “I Love You” e “11 de Setembro”, as empresas começam hoje em dia a questionar-se do que seria a sua actividade se, de um dia para o outro, pura e simplesmente perdessem os seus sistemas informáticos. A resposta que a grande maioria delas encontra é que: “Seria dramático e porventura teria que fechar as portas”. É pois provável que se verifique, no decorrer do ano de 2002, uma predisposição para investimento em sistemas de segurança dos sistemas informáticos, com enfoque nos três A’s (Authentication, Authorization, Administration) e particularmente em sistemas de Disaster Recovery. E este fenómeno deverá acontecer mesmo em países menos expostos, como é o nosso, mas que normalmente estão muito mais vulneráveis.
Uma outra área onde seguramente haverá oportunidades interessantes é a do Outsourcing, quer de aplicações, quer de sistemas. Esta é aliás uma forma de redução de custos (entre 20 a 30% segundo estudo da CGE&Y Inglaterra), pelo menos a médio prazo, que muito interessa às empresas quando pretendem aligeirar a sua estrutura de suporte interno. Em projectos de Outsourcing de grandes dimensões conseguem-se reduções de custos semelhantes mas no imediato.
É de prever também que a “Open Web” continue o seu estado de agonia acelerada dando lugar à “Wireless Internet”que é, ainda hoje, uma criança. Contudo, é uma criança com uma vitalidade e potencial enormes (Segundo a IDC, em 2002 existirão 600 milhões de utilizadores da Internet e, ... 150 milhões de utilizadores de “Mobile Internet”), que permite um conceito muito, mas mesmo muito, interessante para as empresas: o “Microcharging”. A utilização deste tipo de pagamento pela utilização dos conteúdos é, estou seguro, o futuro da Internet e, por isso mesmo, haverá oportunidades interessantes, quer para empresas que disponibilizem os acessos (basicamente empresas de telecomunicações), quer para empresas que produzam conteúdos adaptados para este contexto, e com valor acrescentado.
Finalmente, não quero deixar de referir que todas as empresas vão estar preocupadas, para além da contenção e/ou redução de custos, com as suas próprias vendas, que serão mais difíceis pela própria pressão que se irá gerar no mercado. Por esta razão é natural que a relação com o cliente, através de projectos de CRM - Customer Relationship Management e, a utilização eficaz da informação dispersa nas organizações, nomeadamente com projectos direccionados para as unidades de negócio em que o processo de venda se baseie na redução de custos (CRM analítico), sejam áreas de oportunidade igualmente interessantes. Tipicamente o resultado destes projectos passa, para além do incremento do número de novos clientes, pelo aumento da taxa de retenção de clientes bem como pelo aumento da taxa de eficácia de contacto.
Posto isto e, em jeito de conclusão, estamos todos hoje em dia com um enorme desafio entre mãos: a travessia de um deserto que será tanto mais difícil quanto mais tarde encontrarmos o Oásis. Está nas mãos dos gestores a descoberta do melhor caminho.
José
Carvalho
Vice-President
Capgemini Portugal
