- Artigos de Opinião
- Artigos de Opinião 2002
- Consultoria Tecnológica versus Consultoria de Gestão - Paulo Saldanha Santos
- O senhor das ovelhas - José Carvalho
- Revenue Assurance: uma boa surpresa vinda do sector das telecomunicações - Rui Filipe Alves
- À Procura do Oásis - José Carvalho
- Artigos de Opinião 2002
Por comparação com outros países da Comunidade Europeia, observamos que as nossas empresas ainda não recorrem aos serviços profissionais da forma assídua como o fazem as suas congéneres Europeias. Em valor, Portugal constitui o menor mercado de consultoria da Europa, representando metade do Irlandês, cerca de 24% do Belga ou 8% (!) do Holandês. Este facto deve-se não só ao relativo atraso económico do nosso País - traduzido fundamentalmente pelo menor PIB per capita, como também a uma certa relutância dos nossos gestores na utilização de serviços profissionais.
Ainda assim, na última década temos tido a oportunidade de assistir ao amadurecimento progressivo do sector da consultoria a nível Nacional. Salvo alguns nichos de menor expressão, a actividade tem vindo a especializar-se dentro de quatro segmentos de actuação distintos, cujas fronteiras nem sempre são nítidas: a consultoria de alta direcção (dita “de estratégia”), a consultoria financeira sustentada no Corporate e Project Finance, a consultoria de gestão e a consultoria tecnológica, esta última tradicionalmente ligada a um produto - tecnologia ou software.
Embora, como vimos, ainda estejamos bastante longe dos outros países da Comunidade Europeia, as empresas Portuguesas estão cada vez mais avisadas sobre os serviços que disponibilizam as empresas de consultoria e quais os diferentes tipos de empresas existentes no mercado. Começa a registar-se uma procura sadia por serviços diferenciados e de maior valor acrescentado, aliás à semelhança do que já acontece na Europa há vários anos.
Subsiste, contudo, no mercado alguma confusão entre a consultoria tecnológica e a consultoria de gestão que são dois negócios claramente distintos.
A consultoria de gestão assenta no aconselhamento e apoio na implementação de modelos de gestão, organizacionais e operativos, na escolha e implementação das tecnologias mais adequadas, em suma, na identificação e implementação de soluções de negócio completas que permitam maximizar a eficiência e eficácia das empresas.
A consultoria tecnológica acompanha naturalmente um produto - tecnologia ou software, e pode ser disponibilizada pelo próprio fabricante ou por uma empresa detentora de um capital de conhecimento acerca desse produto. A prestação do serviço é direccionada à “instalação do produto”, estendendo-se frequentemente à formação sobre as suas capacidades. O sucesso duma prática de consultoria tecnológica depende, em boa parte, de se ter apostado no domínio da tecnologia correcta - aquela que irá vingar no mercado.
A preocupação central não reside em determinar qual a melhor forma de utilização do produto na nossa empresa nem qual o valor acrescentado que daí resulta. Talvez este factor possa ter contribuído, também, para gerar alguma desconfiança no mercado em relação às tecnologias emergentes, senão vejamos:
Nos últimos anos fomos bombardeados com o fenómeno do ERP (Enterprise Resource Planning), do BBP (Business - to - Business Procurement), do SCM (Supply-Chain Management), do CRM (Customer Relationship Management), dos Portais empresariais, do Business Intelligence e de quantas outras tendências baseadas, indiscutivelmente, em avanços tecnológicos comprovados.
Como todas as grandes mudanças, a sua assimilação pela sociedade e pelo mercado é lenta. Nestas alturas rapidamente surgem boutiques de consultoria especializadas em determinada tecnologia ou ferramenta, que crescem significativamente aproveitando o filão, enquanto as gigantes do sector, atentas e avisadas mas tradicionalmente mais conservadoras, reagem com alguma inércia.
No mercado Nacional, a euforia em torno do crescimento dos serviços de consultoria aproveitando as tecnologias emergentes teve o seu auge em 2000. Grandes apostas tinham sido feitas para aproveitar este fenómeno. Falava-se bastante na altura em valorização de “intangíveis”.
Depois de muitos investimentos vultuosos condenados ao insucesso e de ter passado a fase de histeria colectiva em torno do “e”-qualquer-coisa-que-ninguém-sabe-muito-bem-o-que-é, as empresas Portuguesas ganharam espírito crítico e só se arriscam na realização de iniciativas que proporcionem um elevado valor acrescentado - com retorno imediato e demonstrável. Assiste-se já ao nascimento de novos projectos, mas não sem terem sido objecto de um estudo prévio de viabilidade económica.
À consultoria, quando praticada numa perspectiva exclusivamente “tecnológica”, faltar-lhe-á a capacidade de análise dos problemas numa perspectiva integrada, requisito base para que se possa identificar o valor acrescentado de cada tecnologia e tirar o máximo partido da sua utilização em determinada circunstância. Observa-se, hoje, que algumas empresas representantes de produtos - alertadas quanto a este facto, estão a fazer evoluir gradualmente os serviços que prestam em torno do produto para a área da consultoria de gestão, contratando ou formando novas competências internas para suprir lacunas de formação.
Paulo
Saldanha Santos
Principal
Capgemini Portugal
