Um pastor e as suas
ovelhas estavam à beira da estrada. Ia a passar um Jeep reluzente com um rapaz
dentro. Camisa e ténis de marca. Então o Jeep pára e o rapaz diz para o
pastor:
- Se
eu adivinhar quantas ovelhas você aí tem dá-me uma?
O pastor olhou para o
rapaz, olhou para aquele monte de ovelhas pastando ao sol e disse:
-
Sim.
O rapaz voltou para
o carro ligou o seu laptop, desenhou a área, gerou uma base de dados,
produziu uns cinquenta gráficos em Excel cheio de matrizes e determinantes, mais
um relatório de cento e cinquenta páginas impresso na sua mini impressora
high-tech. Voltou-se para o pastor e disse:
- O senhor tem mil trezentas
e quarenta e três ovelhas aí no pasto.
O pastor respondeu:
- O senhor
acertou em cheio, pode levar a sua ovelha.
O rapaz foi lá e
pegou a ovelha e colocou na traseira do seu Jeep.
Então o pastor disse:
-
Se eu adivinhar a sua profissão o senhor me devolve a minha ovelha?
O rapaz
respondeu:
- Certo.
O pastor disse
prontamente:
- O senhor é consultor, não é?
Como é que o senhor adivinhou?
Disse o rapaz.
- É fácil. Disse o pastor: O senhor veio aqui sem eu o ter
chamado. Cobra-me uma ovelha para me dizer o que eu já sabia. E não entende nada
do meu negócio, pois já levava o meu cão.
Seguramente que já tinham ouvido contar anedotas sobre consultores ou já ouviram amigos tecer comentários pouco elogiosos ao seu trabalho: “Não fazem, mandam fazer” entre outros menos elogiosos. Contudo, é provável também, que já tenham ouvido falar de empresas que sustentam a sua estratégia, ou as suas operações no trabalho de consultoras.
Afinal o que faz um consultor? Porque procuram tantas empresas, por todo o mundo, serviços de consultoria? E, porque cada vez mais as empresas de consultoria investem nas suas metodologias? E, porque querem as empresas de consultoria ser cada vez maiores e mais abrangentes?
Vou, na tentativa de responder às perguntas que coloco, aproveitar a anedota do início deste texto.
A ideia de que os consultores aparecem onde não são chamados tem a sua razão de ser. Efectivamente, é suposto que as consultoras tragam valor acrescentado às empresas, criando-lhes vantagens competitivas que se podem traduzir a diversos níveis: maior eficiência no processo produtivo, incremento de vendas, redução de custos, optimização de processos administrativos, entre outros. O que acontece é que muitas vezes as empresas estão demasiado envolvidas com o seu negócio para pensarem em soluções alternativas. É pois importante a pro-actividade dos consultores junto das empresas, no sentido de as motivar para novos processos, metodologias ou práticas, com o objectivo final de as tornar mais competitivas e inovadoras no mercado.
Há por outro lado ofertas e metodologias que chegam com mais dificuldade a determinados mercados e, cabe em larga medida, aos consultores a dinamização e divulgação dessas ofertas. Exemplo disso no tecido empresarial português, são os casos dos conceitos de Customer Relationship Management - CRM, das soluções de e-learning ou mesmo de People Relationship Management - PRM, que só muito tardiamente começaram a ser considerados como conceitos capazes de produzir vantagens competitivas às empresas.
Normalmente o aspecto mais sensível para as empresas que utilizam serviços de consultoria são os honorários. Não porque as empresas entendam que não se deve pagar por serviços de consultoria prestados mas, porque o que se alega é que o consultor não faz mais do que dizer o que já se sabia. Obviamente que estamos em presença de uma figura de estilo mas, não deixa de ser um facto que muitas vezes, o trabalho do consultor é sistematizar. E sistematizar quer dizer tratar dados, muitas vezes dispersos, com o objectivo de produzir informação que permita gerir a organização.
Mas, nada de confusões. Não cabe ao consultor gerir as empresas para quem desenvolve projectos. Esse papel cabe ao(s) gestor(es). O consultor deverá formatar a informação que possibilita ao gestor decidir. Que lhe permita tomar as melhores opções, sejam elas estratégicas ou operacionais. É um facto que algumas empresas utilizam melhor do que outras as conclusões dos consultores. Há empresas mais ágeis do que outras e que implementam mais eficazmente as orientações dos consultores. As consultoras são um exército secreto de elite que trabalha dentro das mais importantes empresas do mundo. Elas podem salvar um negócio. Ou arruiná-lo. Mesmo os bons conselhos podem conduzir a desastres, se não controlar o processo.Escrevem James O’Shea e Charles M. Madigan, em artigo na Executive Digest.
Por último, queixa-se o pastor que o consultor não percebe nada do seu negócio. O que realmente acontece é que os (bons) consultores conseguem dotar-se de um nível de abstracção em relação às empresas onde desenvolvem os seus trabalhos, criando-lhes o distanciamento suficiente para pensar de uma forma aberta, sem estar dependente de determinadas regras ou procedimentos, podendo desta forma, e em última análise, repensar todo o negócio. Mas isso não quer dizer que não conheçam o modelo de negócio. É evidente que esta capacidade de abstracção tem de ser combinada com o enquadramento social, económico e processual das empresas e, é por isso, que os projectos são normalmente desenvolvidos com a participação activa de colaboradores das empresas ou da própria equipa directiva.
Mas, porque terá o consultor, tanta facilidade em chegar a uma empresa que desconhece e, em curto espaço de tempo, perceber, compilar, sistematizar e (a maior parte das vezes) implementar soluções. A explicação é simples e pode resumir-se a dois elementos de enorme valor acrescentado: metodologia e experiência.
São dois aspectos determinantes para o sucesso de muitas consultoras e, sobretudo para aquelas que operam a nível transnacional. A metodologia é normalmente desenvolvida e aperfeiçoada por equipas especializadas que se concentram essencialmente nos aspectos de sucesso de um projecto: gestão, qualidade, risco, tempo e resultados. A metodologia é permanentemente afinada e replicada pelos canais de comunicação das organizações por forma a que a gestão dos projectos e os resultados obtidos estejam enquadrados com as expectativas e necessidades dos seus clientes.
A experiência é relevante porque permite trazer às empresas o valor acrescentado de práticas anteriores. Porventura noutros países, eventualmente com outras condicionantes mas, com a mesma base de negócio. Imagine a vantagem que uma empresa de distribuição que quer melhorar o seu canal pode ter ao utilizar os serviços de consultoria de alguém que já fez o mesmo em algumas empresas similares noutros países. Que conhece os sucessos e problemas. Que aporta conhecimento tecnológico diferente. Que sabe diferenciar práticas e perspectivar resultados associados às mesmas.
A prova de que cada vez há mais empresas a entenderem a necessidade de trazer este valor acrescentado para as suas organizações é o facto do negócio da consultoria estar em franca expansão. Assiste-se actualmente a fusões e aquisições de empresas, com o objectivo de tornar as novas consultoras mais abrangentes e potenciar a reutilização que menciono atrás. Essa expansão traduz-se, nas previsões mais optimistas para 2002, na duplicação das receitas geradas no ano de 2001.
Por isso, da próxima vez que ler uma anedota sobre consultores sorria, e pense ... “ainda bem que eles existem”.
José
Carvalho
Vice-Presidente
Capgemini Portugal
