O Parto Sem Dor - Maurício Domingues

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Assistimos ainda ao rescaldo do primeiro ciclo deste fenómeno que é a internet. Até agora, de um modo geral e como balanço desta fase, a utilização da Web centrou-se fundamentalmente na difusão de conteúdos a uma comunidade crescente de cibernautas que experimentavam a mágica sensação de ter, finalmente, o Mundo à distância de um click. Da mesma forma, as empresas que puseram as suas “montras” na web, puderam sentir o emocionante dom da ubiquidade.

Poder-se-á contudo dizer que o negócio através da internet, por exemplo, representa já muitas centenas de milhões de dólares e que tem um futuro crescente e promissor. É verdade, mas qual é, actualmente, o peso relativo dessas transacções na web, face ao total da actividade económica?
Apesar de ser procedimento corrente a consulta dos sites dos fabricantes de automóveis no processo de escolha do carro novo, quantas viaturas são realmente encomendadas pela internet? Experimente o leitor dividir esse número pelo total de viaturas vendidas nos canais tradicionais, e tire as suas próprias conclusões.


Da mesma forma, poderíamos calcular a desproporção que ainda existe entre os consumidores que, empurrando o carrinho das compras, fazem fila na caixa do supermercado, e os que encomendam o rol de víveres pela net. Ou ainda, a discrepância entre as famílias portuguesas que têm acesso à internet e o número de contribuintes que entregam a declaração do IRS pelo browser do computador.
Também nas empresas deste país, para não falar só dos consumidores singulares, e em particular no nosso tecido industrial, as transacções de compra e venda suportadas pela internet são ainda claramente irrisórias, comparando com o totalidade do negócio realizado.
Aparentemente, não há nada de errado no ritmo deste processo de adesão ao fenómeno da internet, excepto para aqueles que, não apresentando propostas de valor na utilização da net, ignoraram os factores que condicionam as decisões e o comportamento das empresas, como sejam, a obtenção do lucro e a resistência interna, só para citar dois aspectos.

Resumidamente, foi isto que aconteceu na primeira geração do e-business. A Nova Economia, se alguma vez existiu, talvez por ser virtual e para fazer juz ao nome, rompia com os velhos princípios da gestão e da rentabilidade.

Passada a fase da euforia e da tempestade, deverá vir a maturidade e a bonança. Começamos já a ver com mais assiduidade as empresas da velha economia a materializarem estratégias de negócio e a desenvolverem iniciativas de sucesso que passam pela utilização da internet, como suporte à criação de Valor.

Poderíamos ter assistido, nestes últimos tempos, a um parto sem dor? Atendendo às expectativas desmesuradas e irrealistas que se geraram em torno da internet, a ausência de dor só poderia estar associada ao efeito de analgésicos, uma vez que a inexistência de projectos rentáveis e modelos de negócio credíveis era, na maior parte das dot.com, o foco da “infecção”. Para além de que os analgésicos, como qualquer outra droga, têm um período de acção limitado.

Num contexto de contínua mudança e de incerteza permanente, a segunda vaga do e-business irá trazer inevitavelmente um maior rigor nas expectativas e na orientação aos resultados. O B2B irá também reforçar o seu lugar de destaque como plataforma de comércio entre as organizações. As empresas irão interagir com um crescente nível de conectividade, criando redes e ligações que promovem a criação de valor entre os seus membros.
Os eMarketplaces irão certamente desempenhar um papel crucial no desenvolvimento do B2B. No entanto, antevêem-se mais dificuldades ao desenvolvimento generalizado do e-business. Vem isto a propósito de uma recente análise do Forrester Research sobre os custos de aquisição através de eMarketplaces, envolvendo 50 directores de Compras de empresas industriais da Fortune 1000.
O referido estudo veio constatar que a redução efectiva de custos, de produto e de processo, são apontados pela esmagadora maioria dos inquiridos como os principais objectivos de adesão aos eMarketplaces.
Urge portanto que os mercados electrónicos saibam dar uma resposta cabal às expectativas dos agentes económicos, pois dessa satisfação depende também a própria sobrevivência dos eMarketplaces.

Para os inquiridos, o principal critério de escolha entre os eMarketplaces é a compatibilidade tecnológica com os seus sistemas internos. Constatamos assim a importância que tem para o Business-to-Business a capacidade de conexão entre os vários protagonistas da cadeia logística: compradores, eMarketplaces e fornecedores.

Por último, quando questionados sobre quais os obstáculos à utilização dos eMarketplaces, a maioria dos inquiridos no estudo da Forrester Research apontou a resistência interna à mudança como o principal obstáculo à utilização dos eMarketplaces. Se alguém ainda tinha dúvidas sobre qual o elemento mais importante para garantir uma estratégia bem sucedida de comércio electrónico, convém não esquecer que tudo isto que temos vindo a falar, tem a ver com as pessoas e as organizações.

Se bem que inegável o impacto da web na economia real, não se esperem pois facilidades, em matéria de (e-)business para os próximos anos.

Apesar de tudo, o balanço da primeira geração do e-business é francamente positivo. Percorreu-se um longo caminho, desde a excitação e o alvoroço efémero dos encontros das primeiras terças-feiras (quem se lembra do “firsttuesday”), até aos recentes exemplos de empresas das mais diversas indústrias e sectores de actividade, que têm vindo a adoptar o comércio electrónico como componente indispensável da sua estratégia de negócio e veículo de materialização de resultados. Afinal, a “nova economia” não está nas dot.com, mas sim nas empresas da velha economia.

Maurício Domingues
Director
Cap Gemini Ernst & Young