A Adesão ao Euro à Portuguesa - José Carvalho

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Nem Jorge Palma quando escreveu a canção “Deixa-me Rir” em 1985 (salvo erro) imaginaria que eu iria utilizar o seu título, no enquadramento deste artigo de opinião, e, ainda por cima, sugerir que o título mudasse para “Deixa-me Chorar”.

Mas rir porquê? Rir, por tudo o que se ouve dizer sobre a adesão de Portugal ao Euro. Por tudo o que se vê no tecido empresarial português. Por tudo o que se ouve na Administração Local. É caso para perguntar: “Acreditam no Pai Natal”? Não? Mas, acreditam se lhes disser que há quem esteja convencido que a data de entrada em circulação do Euro vai ser adiada! Acreditem porque é verdade.

“Oh, vai ser difícil, haverá muita “tourada” e até dará para rir...” Foi assim, com alguma ironia, que Mário Macário, comprador de peixe, perspectivou ao DN de 16 de Outubro como serão os primeiros dias de Janeiro, na lota de Portimão.

Chorar por pensar que a seguir a 1 de Janeiro de 2002 nada vai ser igual e há tanta gente que (ainda) não percebeu isso. Não entendeu as implicações que o Euro pode, e vai, trazer para os seus negócios. E não só nos primeiros dias. E não só no interior. Também nos grandes centros e, pelo menos por seis meses, com reflexos no negócio do ano inteiro.

Mas, qual a razão para este pessimismo? Leio os jornais, vejo as notícias, ouço as pessoas e, cada vez mais acredito que a entrada para o Euro, em Portugal, vai basear-se num fabuloso e metódico trabalho de … improvisação.

Segundo uma pesquisa da Comissão Europeia (CE) publicada na Eubusiness de 20 de Setembro, uma em cada cinco pequenas empresas não estará preparada para o Euro no dia 1 de Janeiro de 2002. Muitas pequenas e médias empresas (PME’s) terão os seus sistemas convertidos para o Euro apenas depois da mudança: 15% continuarão não preparadas para negociar com facturação em Euro e 23% estarão inadaptadas em relação a outras operações segundo esta pesquisa que foi conduzida durante os meses de Julho e Agosto de 2001 e envolveu 2.813 PME’s.

Fabuloso, porque vai ser um trabalho de enorme desgaste, de uma dimensão que a maior parte das pessoas, particularmente os empresários e os autarcas, ainda não imaginaram e, funadamentalmente com resultados imprevisíveis a todos os níveis, mas sobretudo no âmbito económico.

Metódico, porque esta é a forma habitual dos portugueses encararem estes desafios. Improvisando mas com método. Reconhecendo o problema, sabendo-o insusceptível de prorrogação mas, esquecendo em absoluto a sua dimensão e quais as consequências da utilização deste método.

Olho para o tecido empresarial português e, salvo raríssimas excepções, o estado de preparação das empresas e organismos ao Euro é invariavelmente o mesmo. Presumível preparação dos sistemas informáticos e … muito boa vontade para tudo o resto.

Raras são as organizações que entenderam este problema como um desafio, estratégico porventura. Muito poucas são as organizações que equacionaram este problema como uma abordagem funcional (28% das PME’s segundo a CE). Poucas são as organizações que, embora tendo convertido ou contratado a transformação dos seus sistemas informáticos, as tenham testado num novo enquadramento. É certo que algumas organizações dizem estar seguras da preparação para o Euro (59% das PME’s segundo a CE), nomeadamente porque converteram as suas aplicações (66% das PME’s ainda segundo a CE), mas muitas há que, ainda hoje, dizem que no início do ano pensarão e resolverão o problema.

” No dia 2 de Janeiro as organizações têm de facturar, pelo que entre 28 de Dezembro e 5 de Janeiro de 2002, a configuração dos sistemas terá de ser feita. Havendo cerca de 100 000 empresas e 200 técnicos de software de gestão (leia-se técnicos de software e técnicos de gestão) em Portugal, se em média forem necessários dois dias para apoio a uma organização, pergunta-se: como é possível a 200 técnicos preparar cerca de 100 000 empresas em 10 dias? Por isso adoptar o euro já em 2001 é de todo aconselhável” lê-se num artigo da Semana Informática publicado em 27 de Setembro.

Pessimista esta minha visão? Não! De todo. Se o leitor contactasse com as empresas como eu contacto, se lhes fizesse as perguntas que eu faço, teria esta ideia tão negativa ou, porventura, pior ainda. Inquietante no mínimo.

E o leitor? Sente-se confortável? Sente-se preparado enquanto cidadão e profissional? Não. Não me responda dizendo que: “Claro que estou preparado, até já tenho uma máquina de calcular que me converte euros em escudos!”. E mesmo assim, se a tem, teve sorte em encontrar uma. E isto porque, tendo em conta um artigo do DN de 14 de Novembro, Nuno Alves, chefe de vendas da Lexibook Portugal diz: “Neste momento, pode dizer-se que o mercado entrou praticamente em ruptura, uma vez que a capacidade de escoamento das fábricas é muito menor que a procura”.

Mas a que níveis se traduz esta intervenção que, no meu ponto de vista, as empresas portuguesas estão a descurar? Basicamente os problemas poderão advir das seguintes áreas:

· Aspectos de ordem regulamentar;
· Aspectos relacionados com a interacção com os clientes;
· Aspectos relacionados com os procedimentos administrativos e de Gestão de Recursos Humanos;
· Aspectos de índole administrativa ou financeira;
· Elementos funcionais ou processuais de Gestão de Tesouraria;
· Aspectos logísticos;
· Procedimentos de Caixa.

Dependendo da actividade das organizações os aspectos atrás enunciados assumem relevância e impacto diferente.

Em empresas cujo negócio dependa em larga medida da interacção com o cliente, estou a lembrar-me da área da distribuição, dos transportes, do comércio, entre muitos outros, a capacidade que os agentes que interagem com o cliente venham a ter para, rápida e eficazmente, providenciar trocos e esclarecer dúvidas será factor determinante para o sucesso da transição. Caso contrário perpectivam-se problemas que, não exaustivamente, enunciamos: Aumento do tempo de operação com consequente reflexo na rentabilidade e presumível aumento de filas, Necessidade de mais pessoal, Esgotamento de fundo de maneio, Aumento de falhas de caixa, entre outros problemas susceptíveis de criar impactos não apenas no processo de implementação mas também no negócio em si.

Imaginem como serão os primeiros dias após entrada em vigor do Euro numa Pastelaria. Pedem um café e um bolo e o empregado que estava habituado a fazer as contas de cabeça, que estava habituado a pedir-vos 10$00 para mais facilmente fazer o troco estará ele preparado para agir da mesma maneira? Pois, eu penso que não. Baseado em quê? Em perguntas informais que tenho vindo a fazer nos referidos locais.

Experimentem perguntar a um empregado de balcão de uma loja na grande Lisboa quais as notas e moedas de Euros que irão ter à sua disposição? Continuem a perguntar até encontrar um que saiba. Quanto tempo demoraram? Um dia? Que sorte. Façam a mesma pergunta para as moedas e notas em escudos. A resposta será encontrada provavelmente no primeiro caso.

Vamos pintar o quadro um pouco mais escuro. Pensem naquelas lojinhas de província que vendem um pouco de tudo. Saberão essa pessoas como agir perante uma situação REAL de negócio que carece de uma conversão de um pagamento em escudos para um troco em Euros? E, não podemos esquecer que será nessas zonas que o escudo mais tempo prevalecerá. É nas zonas rurais do interior que se encontra menos meios electrónicos de pagamento e menos caixas ATM. É nessas zonas que o dinheiro em moeda é mais transaccionado.

Mais de dois terços do comércio açoriano vistoriado pela Inspecção Regional das Actividades Económicas, entre 1 e 26 de Outubro, não cumpria a lei da dupla afixação de preços. Segundo um relatório a que a agência Lusa teve acesso, publicado no Público de 6 de Novembro, cerca de 68 % dos 440 estabelecimentos de comércio ou prestação de serviços visitados nos Açores pela Inspecção Regional estavam em situação irregular. Deste total, uma grande maioria (58%) dos estabelecimentos apresentavam “erros na afixação”. Cerca de um terço não procediam sequer à dupla afixação de preços, obrigatória desde 1 de Outubro, e nove por cento falhavam na taxa de conversão.

Preocupante? Fiquemo-nos então por Lisboa. Convido-os a entrar numa estação de correios e a olhar para os preços afixados, convido-os a entrar em restaurantes, cafés e snacks desta cidade, convido-os a entrar em organismos da administração pública e local. Entrem e olhem para os preços. Estão em Euros? Não fiquem surpreendidos. Um dia estarão.

Segundo relato do Público de 20 de Novembro, “A Inspecção Geral das Actividades Económicas (IGAE) detectou uma taxa de incumprimento de 25% na afixação de preços em euros e escudos, durante uma fiscalização a 1.187 agentes económicos, realizada em Outubro. No âmbito desta fiscalização, que incidiu maioritariamente sobre retalhistas e prestadores de serviços, foram instaurados 295 processos. Um mês após a entrada em vigor da obrigatoriedade da dupla afixação, a IGAE detectou 102 estabelecimentos comerciais sem afixação de preços, 193 com falta de dupla afixação e 14 com conversões e arredondamentos errados. Na área da saúde pública, onde a taxa de incumprimento global foi também de 25%, foram encerrados três estabelecimentos na sequência das acções de Outubro”.

Em empresas que transaccionam grandes volumes de documentos, por exemplo com emissão de muitas facturas, ordens de pagamento, vendas a dinheiro, notas de encomenda, os aspectos referentes à actualização de dados e consolidação de resultados assume um impacto enorme.

Em empresas onde o nível de qualificação dos recursos é menos elevado é expectável que surjam problemas resultantes dos pedidos de esclarecimento que os funcionários colocarão á organização. Não podemos esquecer que as empresas assumem, ou deveriam assumir, um papel de integração dos seus colaboradores na sociedade civil.

A substituição do escudo pelo euro é motivo de preocupação para 48% dos portugueses, receosos das “dificuldades pessoais” que a nova moeda lhes poderá trazer - daqueles, 60% aponta como causa dos receios a possibilidade de erro nos cálculos de conversão e 58% atribui os eventuais enganos provocados por terceiros ao nível das transacções. Esta é uma das conclusões do último inquérito trimestral promovido pelo Centro de Estudos da Universidade Católica para a Comissão Nacional do Euro (CNE), entre 8 e 27 de Outubro e publicado no Público em 22 de Novembro.

Em organismos que, por necessidade, têm uma grande quantidade de documentos suportados por normas cuja regulamentação carece de aprovação institucional, prevê-se uma luta contra o tempo no sentido de aprovar alterações de capital social, alterações de preços e condições de prestação de serviços, entre outros procedimentos. Estou a lembrar-me das autarquias, onde os preços dos serviços carecem de aprovaçao e ratificação pela Assembleia Municipal antes de serem apresentados ao público ou, das empresas em geral onde o capital social carece de conversão para Euros o que implica carga administrativa.

Tudo o que acabei de dizer transfere este problema do foro meramente empresarial para o foro político. E fá-lo sobretudo porque as implicações a nível económico serão significativas e aparecerão porventura na altura menos conveniente. O facto é que estando numa recessão ou, como há quem defenda num ciclo de crescimento nulo, o que menos interessa à nossa economia é ser confrontada com mais problemas. E as previsões apontam para uma quebra do consumo, com consequências directas nos resultados das empresas.

Se por um lado esta quebra pode ser benéfica pela redução da taxa de inflação que proporcionará, será por outro lado mais um factor para criar um (ainda) maior afastamento da nossa economia em relação às congéneres europeias.

É claro que esta eventual redução na taxa de inflação será compensada pelo aumento previsto pelo impacto da conversão dos preços que será feita, tudo leva a crer, para cima. Ainda assim e, no pior cenário, a mudança para a moeda única provocará aumentos de apenas 0,23%, segundo estudo do Banco de Portugal.

Posto isto qual a solução? Bom, nesta altura do campeonato, já é tarde. O desafio que agora se nos coloca é provar que somos (ou continuamos a ser) os melhores da Europa na arte do improviso. E, … seja o que Deus quiser.

José Carvalho
Vice-Presidente
Capgemini Portugal