Parcerias: Partilha de Responsabilidades - Henrique Ahnfelt

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Na nova economia cria-se uma empresa para cada projecto, envolvendo como accionistas, por um lado, os promotores e principais interessados nos resultados financeiros da empresa e, por outro lado, os fornecedores seleccionados interessados em fornecer serviços e produtos, quer na construção e manutenção da infra-estrutura e operação da empresa, quer no contributo à proposta valor idealizada.

O modelo não é novo mas popularizou-se com as dot.com - e para alguns grupos económicos constitui o ‘modus operandi’ normal (mesmo fora da nova economia).

As consequências são interessantes, se bem que o sucesso é menos que garantido. A promiscuidade entre a defesa do novo projecto e a dos interesses próprios de cada ‘parceiro’ formam o sentido da palavra “responsabilidade” mais para os interesses próprios que para os da parceria. Um investimento em capital pode ser largamente compensado com os rendimentos de um monopólio de fornecimento. E, sem concorrência, não é óbvio que os serviço prestados são aqueles que melhor serviriam a empresa, porque poderia haver melhores fornecedores e porque fornecedores com monopólio não necessitam de fazer o seu melhor.

Revendo o casting, eis os actores. Em primeiro lugar, as empresas promotoras, com dois tipos principais de drivers: para rentabilizar activos existentes (caso típico das empresas do sector das comunicações); para expandir para novas oportunidades de negócio da nova economia. Ambos desenvolvem as novas actividades quer dentro quer fora do seu sector natural de actividade. Os actores ‘empresariais’ deterão normalmente uma posição de controlo na nova empresa, mesmo que tal não implique uma maioria do capital.
De seguida, os parceiros interessados em vender no sector em causa - bancos em e-marketplaces e sites financeiros, empresas media em portais, etc. Dependendo do projecto, estes parceiros podem assumir posições equitativas de controlo ou ‘apenas’ posições importantes. Finalmente, os parceiros que vão executar as tarefas não-‘core’ do projecto, relacionadas com a sua construção ou com o suporte às operações da empresa em funcionamento. As modalidades de participação destes parceiros é normalmente menor.

Qualquer que seja o parceiro que tiver interesses específicos para além da rentabilidade da nova empresa, terá sempre interesse em suprimir a concorrência na área de serviços ou produtos que representa. Nessa área, será sempre contra a sua vontade que a sua oferta, em termos da relação preço / valor, será comparada com a dos concorrentes. De facto, as experiências parecem mostrar que esta é a situação normal nos casos em que as empresas são constituídas por parceiros envolvidos por causa dos seus serviços / produtos e não com interesses estritamente financeiros.

A supressão das regras normais da concorrência parece também tornar-se mais evidente e nefasta com o tempo. Dependendo do tipo de parceiro as consequências diferem. Parceiros que trazem produtos ou serviços (consultoria, informática, marketing, etc.) tornam-se nocivos a partir do fim da fase subjacente à sua escolha - onde poderá já, sem medo de concorrência, ‘recuperar’ os seus investimentos. Parceiros que trazem valor acrescentado em termos do desenvolvimento do negócio, como consultores, passam os seus melhores recursos para os projectos onde a necessidade de ser perfilar é maior, deixando a parceria ao abandono nas mãos de recursos com menos experiência Parceiros com produtos ou serviços impedem ou dificultam a distribuição de todos os produtos de entidades concorrentes que poderiam canibalizar os seus próprios produtos e serviços.

Ao longo do percurso, há vícios derivados de acesso desigual a informação entre fornecedores que estão dentro e fora da empresa. Torna-se complicado distinguir entre o papel de parceiro e fornecedor e a importância do acesso privilegiado aos decisores, do acesso ou até a participação na concepção de documentação subjacente à selecção e escolha de fornecedores, etc.

Está claro que, num modelo de empresas em que a livre concorrência ao fornecimento de serviços e produtos é permanentemente posta em causa, em que as regras do jogo são fortemente condicionadas por acesso desigual a informação, em que as relações pessoais tomam precedência sobre o mérito e não está claro de quem são os interesses defendidos nas decisões da empresa, podemos discutir se os insucessos na Internet são a culpa do reduzido número de Portugueses com acesso à Internet, do dimensionamento dos servidores utilizados ou da política do Governo.

Mas merece alguma reflexão a confusão que se faz entre a responsabilização de que tem que fornecer um produto ou serviço - e existem métodos bem estabelecidos no mercado para isso - com partilha de risco e investimento numa nova empresa. Quem quer, arrisca capital em projectos que acredita poderem ser rentáveis. Mas a rentabilidade deve vir do projecto e não de preços inflacionados por falta de concorrência.

Henrique Ahnfelt
Capgemini Portugal