...Mas a Nova Economia existe? - Henrique Ahnfelt

Está em: Imprensa

 

Será que somos tão atrasadinhos, tão atrasadinhos em Portugal que criamos espaço para escrever sobre a nova economia... quando ela já passou?

Aqueles de nós que há um ano não dormiam, com a angustia de estar a ser ultrapassados nos nossos negócios por miúdos cabeludos (com conceitos que não só desdenhavam a nossa forma de trabalhar mas até princípios básicos como rentabilidade e mercado), já dormem de novo. Desmistificados foram aqueles que chamavam ‘espírito de inovação’ à falta de método, ‘espírito de equipa’ à sua desorganização, ‘dedicação’ a dias de trabalho de 20 horas ou ‘princípios participativos’ à recompensa através de stock options em vez de salários. Agora, por outro lado, o descrédito (ou talvez algum embaraço) levaram as valorizações de empresas que investem em novos modelos de negócio para poços que não merecem.

(Aqui, entre nós, a razão principal para não termos dormido até nem era nenhuma destas - era que os miúdos estavam a ficar ricos e nós não. E era duro investir quando toda a nossa lógica gritava “NÃO!”).

Agora que o bom senso voltou à base, há que entender o que de facto é diferente na nova economia e o que se mantém. Como as implicações da Internet se estendem por toda a cadeia de valor de todos os sectores, com implicações mais ou menos importantes (e também, por vezes, dramáticas), parece fazer sentido agora, que a histeria desapareceu, comentar essas facetas que diferenciam uma ‘nova economia’.

Existem claras oportunidades para utilizar as infra-estruturas que agora existem ao nosso dispor para repensar a forma como fazemos as coisas e ganhar dinheiro com isso, para a empresa da velha economia tal como para a da nova. E a expansão da rede para o ar, com o UMTS, vai-nos trazer a liberdade do fio e outras novas oportunidades para criar negócios e chegar aos nossos Clientes em situações completamente inéditas (para pensar bem nisto, o mais fácil é começar por esquecer o telemóvel).

Por isso, nesta coluna, irei tentar mostrar diferentes aspectos do pensamento e das experiências na nova economia, com o foco sempre naquilo que traz ou impede a criação de valor ao negócio - a tecnologia será coberta na medida em que estiver directamente implicada no ponto que quero fazer. Não prometo ser consensual, mas prometo não ser banal.

E, para começar, que tal uma reflexão sobre as formas como estamos a gerir as empresas da nova economia? Será que podem ter sucessos estas empresas, que misturam no seu capital social os mais diversos interesses, desde rentabilização de activos dos donos até fornecedores interessados no monopólio de fornecimento, geridas por gestores super-activos por força dos seus esquemas de stock options, com pouco rigor e suporte na gestão financeira, com orçamentos de investimento avultados e planos de negócio ‘conservadores’ mas totalmente alicerçados em suposições? Será que alguma empresa da ‘velha’ economia lançada nestas condições, à pressa, com conflitos de interesses, poderia ter sucesso?

Henrique Ahnfelt
Capgemini Portugal