IT/ASP - Negócios distintos ou complementares? - Nuno Fragoso

Está em: Imprensa

O ASP (Application Service Provider) é um serviço de alojamento e gestão centralizada de aplicações, a que os utilizadores podem aceder remotamente mediante o pagamento de uma mensalidade. Os actores que desenvolvem a sua actividade neste mercado são variados: (i) Produtores de software responsáveis pelo desenvolvimento das aplicações, (ii) ISPs que fornecem conectividade e acesso à Internet, (iii) Telecoms ou operadores de telecomunicações, (iv) Integradores de Sistemas e Tecnologias (IT) que implementam aplicações e infra-estruturas tecnológicas e (v) Data Centres, responsáveis pelo desenvolvimento e gestão da infra-estrutura que suporta os parques de servidores. O posicionamentos destes agentes pode ser aferido como função da complexidade das aplicações propostas ao mercado (desde aplicações colaborativas do tipo MS-Office, até aplicações operacionais como CRMs) e da maior ou menor abrangência do serviço oferecido aos clientes (desde o “simples” acesso remoto a aplicações, até serviços de implementação e integração de sistemas).

Cadeia de Valor ASP

A análise da cadeia de valor ASP e o seu cruzamento com o core business dos agentes do negócio revela quais as competências por estes detidas e quais aquelas a adquirir, evidenciado a necessidade de complexas parcerias e ainda a origem da maioria dos ASP: ISPs/Telecoms e empresas IT, detentores de uma significativa parte das actividades da cadeia de valor. Esta análise revela ainda que as empresas que dominam as capacidades de integração e implementação, controlam competências críticas para o sucesso deste negócio, difíceis de desenvolver internamente ou adquirir externamente. Para além disso detêm outras vantagens em relação aos seus concorrentes: (i) bases de clientes nos sectores onde habitualmente operam, (ii) o conhecimento do negócio dos seus clientes e (iii) relações de parceria com produtores de software. Quanto às restantes actividades da cadeia de valor, assentam em serviços disponibilizados por ISPs/Telecoms e Data Centres, commodities menos criticas para o negócio.

Apesar das empresas de IT dominarem competências críticas, é fundamental avaliar se a entrada neste negócio resulta ou não em benefícios para os accionistas, isto é, se a rentabilidade da iniciativa ASP será ou não superior à conseguida no negócio tradicional. Para um Integrador de Sistemas/Tecnologias focado em projectos de grande dimensão, elevada customização e rentabilidade, e apesar do ASP se apresentar como um canal para o escoamento dos seus serviços de integração, implementação e/ou consultoria, tal exigirá a alocação de recursos escassos e caros a projectos de menor valor (o modelo ASP garante rentabilidades interessantes desde que assente em soluções pouco customizadas e vendidas ao maior número possível de clientes, de modo a promover economias de escala), e que contribuem com menores margens operacionais. A entrada no negócio ASP parece mais adequada a empresas IT de pequena e média dimensão, cujo negócio reside na integração de pacotes menos customizados e menos onerosos para o cliente, isto é, um negócio com margens mais próximas das realizadas em projectos ASP. Neste caso, a proposta de acesso remoto a aplicações resultará na angariação de novos clientes dentro de segmentos alvos já visados e na proposta aos seus clientes actuais da migração das suas aplicações proprietárias, para o modelo ASP.

A associação entre estes negócios revela benefícios económicos para as empresas de IT:

  • O negócio ASP gera uma nova fonte de receitas, os fees de acesso, para além de receitas adicionais provenientes de trabalhos de integração, implementação e formação, desenvolvidos junto dos clientes ASP. Como consequência do menor grau de customização implícito ao modelo ASP, os projectos terão uma duração menor, com custos operacionais inferiores.
  • O Integrador capitalizará na sua base de clientes, desde que consiga propor um modelo com menores custos de implementação e manutenção. A verificar-se esta hipótese, poderão surgir novas oportunidades de negócio, sendo angariados novos clientes em segmentos de mercado de menores recursos financeiros, até agora afastados das soluções mais complexas e onerosas.
  • Internalizando competências IT, o ASP poderá propor aos seus clientes soluções adequadas às particularidades dos sectores onde os clientes desenvolvem a sua actividade, diferenciando-se de soluções mais genéricas da concorrência, podendo garantir margens mais atraentes.

Para o cliente, a proposta de valor revela-se bastante interessante. Poderá aceder a aplicações adequadas ao seu negócio a um custo fixo no tempo (devendo na sua globalidade ser inferior ao obtido no caso em que o cliente é dono das aplicações e responsável pela sua gestão), e terá à sua disposição, para além dos serviços ASP (como acesso remoto às aplicações, apoio técnico, formação, conectividade, segurança ou hosting), serviços de consultoria, desenvolvimento à medida, gestão de operações e integração de sistemas, contactando com um único fornecedor/parceiro global.

Nuno Fragoso
Capgemini Portugal