Viagens e Comparações - Domingos Soares de Oliveira

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A globalização, para além das consequências económicas por todos conhecidas, trouxe-nos também outros aspectos menos mediáticos. Um deles traduz-se no facto de que, hoje em dia, viajamos cada vez mais para fora de Portugal, por motivos de lazer e, sobretudo, por motivos profissionais.


A maior parte das vezes as viagens resumem-se ao ciclo”aeroporto-avião-aeroporto-táxi-escritório” e vice versa e sendo assim, as únicas comparações que odem ser feitas entre a nossa realidade e a dos outros não nos deixam envergonhados; o nosso aeroporto é de fácil acesso (refiro-me ao da Portela e não ao Francisco Sá Carneiro onde a conversa teria de ser outra), a TAP tem um serviço excelente e os nossos táxis são tão bons quanto os demais (com excepção de alguns condutores que insistem em roubar o estrangeiro que nos visita).

Acontece porém que noutras circunstancias acabamos por passar mais tempo nos locais habituais ou até nos desviamos para recantos mais remotos e quando assim é, não podemos deixar de comparar as realidades aí encontradas com a nossa vivência neste jardim à beira mar plantado. E sinceramente, por muito que amemos (e amamos mesmo) este Portugal, há pelo menos duas situações que nos deveriam levar a erguer a voz e clamar por mudanças que só por si permitiriam melhorar a nossa qualidade de vida.

Talvez o mais gritante seja mesmo a higiene e limpeza (ou a falta dela); não tanto a limpeza pessoal, porque nesse aspecto há povos bem menos asseados do que o nosso, mas a limpeza das vias púbicas, dos jardins e de todos os nossos espaços públicos. Chega a ser estranho percorrer estradas por essa Europa fora em que não encontramos durante muitos quilómetros os dejectos de almoços bem servidos embrulhados nalgum saco de plástico de um supermercado bem conhecido, as fraldas do pequenino ou as garrafas de plástico vazias que foram sendo expedidas pela janela da viatura ao longo do percurso.

Em qualquer aldeia da maioria dos países desenvolvidos há uma preocupação com a higiene pública, o que só é possível por uma conjugação de esforços da população e dos poderes locais. Em Portugal, nesta matéria, parece não haver esforços nem de um lado nem do outro e provavelmente só com um grande investimento na educação das novas gerações será possível sensibilizar os poderes locais para a necessidade de assumirem a limpeza e higiene com algo de verdadeiramente importante.

A segunda situação prende-se com o respeito das regras, pequenas ou grandes, importantes ou irrelevantes, escritas ou apenas de senso comum mas regras que são iguais para toda a sociedade. Na estrada são raros os casos em que os limites de velocidade são infringidos com tanta assiduidade com em Portugal. Nas saídas nocturnas, os grupos de jovens encontram sempre formas de não terem de conduzir alcoolizados. Onde há passadeiras, somos reprimidos verbalmente (até por crianças como eu próprio pude constar) se atravessamos indevidamente. Nas empresas paga-se os impostos que são devidos e não se tenta enganar o Estado. O Estado aproveita esses mesmos impostos para fazer os investimentos necessários que tornem o país mais competitivo. E os raros que não cumprem as regras são sempre perseguidos e condenados, para que “a culpa não morra solteira”.

Somos um povo excepcional, com um passado que nos orgulha, somos tolerantes, capazes de nos mobilizarmos por uma boa causa, seja ela a adesão à moeda única ou a independência de Timor, somos simpáticos entre nós e sobretudo para com os estrangeiros, temos valores individuais que ocupam lugares chaves no panorama internacional, mas falta-nos ainda alguma coisa para nos podermos assumir como cidadãos de primeira: mais civismo.

Domingos Soares de Oliveira
Capgemini Portugal