O Profissionalismo Americano - Domingos Oliveira

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Por razões de natureza profissional, estive recentemente nos Estados Unidos e percorri este país de Boston a Atlanta e de Nova Iorque até Silicon Valley, tudo em menos de 5 dias úteis.

Efectuei reuniões várias com profissionais oriundos quer da Cap Gemini Ernst & Young, quer de outras empresas, debati com alguns investigadores as principais tendências de negócio que se avizinham para os próximos 24 meses (e que no meu próximo artigo darei conta aos leitores do Jornal de Negócios) e durante os intervalos entre cada reunião ainda consegui sentir um pouco daquilo que é o American style.

Várias vezes durante esta viagem recordei a confidência do nosso Primeiro Ministro, que acha que os Portugueses são pouco profissionais, sobretudo por esta afirmação ter sido inicialmente feita por comparação com os Americanos.

Confesso que na altura em que a frase foi revelada pelos media senti que a mesma não correspondia à realidade, que se tratava de uma injustiça perante um número elevado de cidadãos que todos os dias dão o seu melhor, que a acusação era quase um insulto e nestas coisas, como em muitas outras, quem não se sente, não é filho de boa gente.

Ao reafirmar que o profissionalismo de grande número de portugueses nada fica a dever ao que encontramos além fronteiras, falo com conhecimento de causa; vivi cerca de dez anos fora de Portugal, trabalhei durante dois anos num dos países mais avançados da Europa Ocidental e todos os meses desloco-me várias vezes (demasiadas, segundo a família) para fora do país por motivos profissionais.

No entanto é impossível não constatar que neste país, na maioria das empresas e na Administração Pública encontramos com alguma regularidade falta de profissionalismo. Não creio é que se trate de um exclusivo nacional, nem que individualmente tenhamos uma percentagem menor de profissionalismo relativamente aos outros países do Mundo Ocidental .
Agora é certo que podemos e devemos melhorar.

Voltando ao meu périplo por terras do tio Sam, apesar de não ter podido descortinar onde e quando são os Americanos mais profissionais que os Portugueses, pude constatar que efectivamente os Estados Unidos são uma economia fantástica, (mesmo em período de recessão) e haverá certamente políticas que nos deveriam inspirar. Não me refiro obviamente a questões ligadas à dimensão do país e a uma língua universal porque obviamente aí pouco podemos mudar. Refiro-me sim a políticas concretas que podem ser seguidas pelos dirigentes nacionais.

Um bom exemplo é a menor burocracia que existe e que no caso concreto dos empresários se traduz na facilidade com que se criam (e fecham) empresas.

Outro exemplo é o dinamismo dos investidores, institucionais e privados, que compreendem que a riqueza é criada pelo valor acrescentado que as empresas proporcionam aos seus clientes que exigem a geração de lucros reais e não apenas uma subida momentânea da cotação bolsista e que consequentemente, estão dispostos a investir em projectos que se revelem bem estruturados e assentes em bases sólidas.

Outro ainda é a mobilidade e aqui sim, a exigência de profissionalismo, gerada por uma legislação laboral bastante mais flexível do que aquela que conhecemos. Um profissional que não se empenha, um profissional que não atinge os resultados pode ser despedido com grande facilidade. E em todos os sectores em que não há pleno emprego esta realidade obriga todos os trabalhadores, independentemente do seu estatuto a darem o seu melhor.

Como referia há pouco tempo o Sr. Presidente da República, deixemos de criticar e tomemos medidas concretas. Sobretudo quando o que criticamos é obra das nossas decisões ou, pior ainda, das nossas indecisões.

Domingos Soares de Oliveira
Capgemini Portugal