Receita de sucesso Internet - Henrique Ahnfelt

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Tem uma ideia para um negócio Internet? Contrate uma consultora que defina um modelo de negócio e faça um Business Plan. Depois, guarde esta documentação num lugar seguro e deite fora a chave para ter a certeza que fica secreto. Ponha uns consultores juniores (sem verem o modelo do negócio, que é secreto) a levantar como é que os outros fazem na Net e faça-os compilar uma lista de funcionalidades para o Pai Natal. Chame a esta lista ‘Caderno de Encargos’.

Contrate uma empresa de imagem para criar um logotipo e a marca. Não lhes conte para o que é nem qual é a proposta valor em termos de qualidade e expectativas dos utilizadores (o que, como decerto se lembra, é secreto).


Por fim, contrate quem coloque uma dúzia de pessoas numa sala e as faça trabalhar dia e noite - quanto mais exaustas, melhor. Não lhes mostre o modelo de negócio (claro!) e deixe que a lista de funcionalidades que criou seja o documento directivo. Defina que a principal prioridade é a data de lançamento (para obter o ‘first mover advantage’) e determine uma data tão próxima que torne de todo impossível um período de testes (equipa exausta sem testes...). Isto deve resultar numa purga significativa de funcionalidades e conteúdo - com uma boa negociação as cláusulas do contrato que firmou com o implementador ainda lhe pagam o portal! Se estiver em risco de ter o portal implementado a tempo, faça com que a imagem só chegue na semana antes do lançamento, em papel (nunca na forma de elementos HTML). Deixe para uma segunda fase a contratação de pessoas, criação de conteúdos, definição de processos, construção do back-office e os estudos sobre as necessidades e aspirações dos clientes.

Tanto quanto possível use contratos a preço fixo sem determinar, à partida, qual o conteúdo. Para além de lhe dar grande latitude para fazer o que quiser, isto garante que não há iniciativas (que só iriam confundir) por parte dos fornecedores (porque qualquer sugestão significa mais trabalho sem mais dinheiro). Ou então apelide-os de ‘parceiros’ - fazem o trabalho e recebem se sobrar qualquer coisa de eventuais lucros. Se protestarem demonstram não acreditar no projecto e não estar dispostos a solidarizar-se consigo. Depois é só utilizar o seu poder para expandir todas as funcionalidades de alto nível da lista até à exaustão, interprete de forma criativa a lista de funcionalidades e ponha a maior pressão possível sobre o fornecedor para que sejam todas incluídas para a 1ª versão. Que antecipa uma semana.

Garanta que a gestão do projecto se preocupe sempre com tecnicalidades e não deixe nunca que se preocupe com assuntos laterais, tais como processos, back-office, gestão comercial, logística, qualidade, experiência do utilizador ou o sucesso do portal.

Por fim, defina de quem vai ser a culpa se o portal falhar. Pode ser o implementador ou a performance das redes Portuguesas, a (i)maturidade dos utilizadores, o falhanço do WAP, ou, como hoje é comum, o Governo. Demita-se o Sr. Ministro!

Henrique Ahnfelt
Capgemini Portugal