O País das Pontes - Domingos Soares de Oliveira

Está em: Imprensa

Começámos o novo Milénio como terminámos o anterior, sob o signo de uma simpática ponte. Em relação ao dia 26 de Dezembro, a explicação oficial invocou a quadra natalícia e a deslocação de um elevado número de trabalhadores da função pública para fora dos locais de residência habitual. Fazendo fé nesta justificação, significa que nos próximos anos, para além da habitual ponte na véspera do Natal, vamos também passar a ter outra ponte no dia seguinte.

Quanto ao dia 2 de Janeiro, nenhuma razão foi invocada, mas, tendo em consideração que o grande fluxo de trânsito ocorreu no próprio dia 1, então é possível especular que tal benesse se deveu à necessidade de curar alguma ressaca derivada de festejos exuberantes.


Se a tendência se mantiver, arriscamos a ter pontes para permitir que os trabalhadores se mascarem devidamente e que consigam retirar os enfeites na quarta feira de cinzas, para que os trabalhadores ensaiem as manifestações comemorativas das Revoluções, do dia do Trabalhador, da Implantação da República ou da Restauração, para que se possam organizar para os festejos dos Santos Populares ou que iniciem atempadamente a reflexão necessária associada a cada feriado religioso. Se a moda pega, ainda é possível ir mais longe; porque não prever também pontes para as sextas e segundas feiras ou para comemorar devidamente algum casamento de personalidades importantes deste país à beira mar plantado?

Há quem defenda que estas pontes são importantes sobretudo do ponto de vista económico, argumentando que sai mais caro manter determinados “trabalhadores” no seu posto de trabalho do que mandá-los para casa. Penso que é impossível sustentar esta tese. E mais, a sua origem é preocupante. Seria interessante que fossem calculados os custos para o país destas tolerâncias e que os resultados fossem divulgados, compreendendo cada cidadão quanto é que terá de desembolsar. A clareza dos números pode ajudar os decisores a tomarem as opções que mais interessam ao país e não apenas as que são mais populares.

Numa altura em que todos os analistas alertam para a perca de competitividade de Portugal, com uma tendência clara de agravamento do fosso actual em relação a países como a Grécia, a Irlanda ou Espanha, quando se sabe que estamos a viver acima das nossas possibilidades, é fundamental a assunção de uma política rigorosa que combata o decréscimo de produtividade nacional. E não é dando duas pontes para a função pública que se atinge este objectivo.

Domingos Soares de Oliveira
Capgemini Portugal