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Pode-se
tratar uma crise com “paninhos quentes”?
Esta pergunta, cuja resposta, à
partida negativa, não deveria levantar dúvidas, pressupõe que todos estamos
conscientes de que há uma crise.
Nos últimos meses (para não ir mais longe) temos vindo a ser confrontados com um conjunto de indicadores sobre a situação económica nacional muito preocupante. Mais recentemente ficámos a saber que as receitas fiscais dos primeiros cinco meses ficaram aquém do previsto o que foi interpretado oficialmente como consequência do abrandamento económico.
No início do mês, um conjunto importante de empresários nacionais reuniu-se para reflectir sobre a situação actual e futura do país e manifestou a sua enorme preocupação sobre a evolução económica nacional.
Nas comemorações do 10 de Junho, o Presidente da República reconheceu que a situação é “complexa e difícil, requer correcção para evitar males maiores e poderá implicar, temporariamente, um crescimento menor do que desejaríamos”.
Os próprios cidadãos também já entenderam que os tempos são outros; os responsáveis do sector automóvel ou do sector imobiliário assumem claramente que as vendas estão em quebra o que traduz a contenção do público em relação a viaturas e habitação. A própria apatia da bolsa revela que até a dona de casa deixou de movimentar as suas poupanças como o fazia há um ano atrás.
Os alertas estão dados, os diagnósticos estão feitos, quase tudo o que é possível escrever sobre este tema já foi escrito. Deste ponto de vista, o que pode ser preocupante é que nos arriscamos dentro de pouco tempo a considerar a situação normal e voltaremos à situação de apatia que tem caracterizado a opinião pública nos últimos meses. Porque todos os alertas estão feitos, porque as críticas são oriundas de todos os quadrantes políticos sem excepção, porque o tempo dos diagnósticos passou, e sobretudo porque os portugueses sempre foram capazes de se mobilizar por uma boa causa, política ou económica, há que assumir os factos e agir em conformidade.
É crucial que seja explicado para onde queremos ir e como vamos lá chegar; quais as reformas estruturais que o Governo vai fazer, como vai reduzir o peso da Administração Pública, quais os sacrifícios que serão exigidos às famílias, qual o esforço que será pedido a cada um.
As medidas que forem tomadas serão certamente impopulares, medidas que custam, mas sem as quais não é possível continuar. Está em causa o País. E a nossa história recente prova que, independentemente dos votos, são reconhecidos aqueles que tiveram a coragem política de agir e levar o país a bom porto.
Domingos Soares de Oliveira
Capgemini Portugal
