Televisão interactiva em Portugal - Que perspectivas de futuro? - Sofia Caetano de Almeida

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Desde o lançamento do serviço de televisão interactiva (iTV), no passado dia 7 de Junho em Portugal, que se tem vindo a intensificar progressivamente a atenção pública em torno desde assunto.

Através da interactividade permitida pela set-top box (STB), o utilizador poderá, entre outras possibilidades, customizar a programação, efectuar compras, transacções e jogos, visualizar e gravar os programas preferidos, tudo isto, sem abandonar o conforto do seu sofá.

Segundo um relatório da Datamonitor, na Europa e particularmente nos países mediterrâneos, encontram-se reunidas excelentes condições para o arranque da iTV, tendo sido previsto pelo Yankee Group um número de 81,2 milhões de lares europeus com iTV até ao final de 2005. Para tal, concorrem razões históricas. Serviços como o teletexto, o videotexto e o Minitel constituíram as primeiras experiências de familiarização com a interactividade.

Em Portugal, as previsões da TV cabo apontam já para 300 mil utilizadores até ao final de 2002, prevendo-se que o número total aumente substancialmente com a introdução da televisão digital terrestre, prevista para final de 2002.

A adesão dos consumidores à iTV começou por ser lenta…

Apesar deste clima de relativo optimismo, os exemplos que nos chegam de fora de Portugal evidenciam alguma hesitação por parte dos consumidores, em aceitar a iTV.

Antes do lançamento nos vários países, foram frequentemente realizadas consultas a utilizadores sobre a disponibilização de serviços de iTV. A reacção foi na maioria dos casos muito positiva. De facto, não existe motivo aparente para alguém negar o interesse em melhorar a sua qualidade de vida. O cerne da questão revela-se quando a falta de familiaridade com os dispositivos tecnológicos e uma percepção insuficiente da globalidade dos benefícios, faz com que haja alguma retracção à experimentação, por parte do utilizador.

O custo do serviço é um outro factor importante a ter em conta. Este foi frequentemente apontado como sendo o maior obstáculo pelos potenciais utilizadores. Contudo, o consumidor está disposto a pagar um valor semelhante ao da televisão por cabo, se lhes for disponibilizado um vasto leque de serviços.

Enquanto persistirem estes obstáculos na mente do consumidor, confrontamo-nos com a criação de um ciclo vicioso: o consumidor não vai aderir em massa aos serviços interactivos enquanto (i) o custo de aquisição do serviço for percebido como elevado, (ii) as barreiras psicológicas não forem ultrapassadas e (iii) os conteúdos forem pouco apelativos. Por outro lado, os fornecedores de conteúdos não estão interessados em investir, enquanto a taxa de penetração no mercado for baixa, pois caso contrário, não conseguem diluir os seus custos fixos.

É, uma vez mais, altura de adaptar os modelos de negócio das empresas/sectores. Basta pensar que produtos como o TiVO e o RePlay permitem a gravação dos programas preferidos pelo utilizador num arquivo com muito maior conveniência e capacidade de armazenamento que o tradicional gravador de vídeo, para concluirmos que, através de uma maior “liberdade de consumo”, o utilizador poderá ver a televisão que desejar, quando lhe apetecer, o que não significa necessariamente durante o horário nobre. Consequentemente, os anunciantes terão que enveredar por alternativas diferentes para conquistar o público e levá-lo a comprar os seus produtos.


Quais as alternativas futuras?

A Forrester Research afirma que os utilizadores irão aderir à iTV à medida que o potencial de interactividade aumentar. Para isso, devem verificar-se algumas condições mínimas: (i) preço aceitável do serviço, (ii) conveniência e comodidade do serviço, (iii) facilidade de utilização, (iv) detenção do controlo por parte do utilizador, (v) curiosidade e interesse, (vi) rapidez, (vii) historial de familiaridade com o utilizador e (viii) credibilidade e confiança no aparelho.

Os players presentes no mercado devem efectuar um esforço suplementar, no sentido de tornar a utilização da iTV uma experiência ergonómica, não só do ponto de vista físico mas também comportamental. O consumidor não se poderá sentir restringido por barreiras como a falta de segurança, a complexidade de utilização ou a angústia de não entender o que se passa dentro da caixa. A assunção integral ou quase total do custo da STB pelos fornecedores de conteúdos, exemplo seguido pelo Reino Unido, onde a taxa de penetração da iTV é actualmente de 40% dos lares (segundo a Strategy Analytics) poderá constituir uma forma de ultrapassar o principal obstáculo à adesão - o preço - e despoletar a rápida massificação do serviço.

Os intervenientes neste mercado devem consciencializar-se que a era do público passivo e comedido nas expectativas já terminou. Os consumidores de hoje pretendem desempenhar um papel pró-activo nas suas escolhas, rejeitando tecnologia aparentemente inútil ou supérflua à sua vida diária. Encontramo-nos perante um momento de transição em que o indivíduo que se senta à noite em frente à televisão, não é mais um espectador mas sim um utilizador, perfeitamente consciente da sua liberdade de escolha.

Sofia Caetano de Almeida
Capgemini Portugal