Crise de confiança - Domingos Oliveira

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O mês de Junho marcou claramente uma viragem na confiança dos portugueses em relação ao futuro. Que há razões para isso, ninguém duvida, mas sabendo que não houve nenhum facto económico verdadeiramente novo durante o mês, estranha-se sobretudo a razão de um despertar tão tardio.

Por um lado, os indicadores mostram já há algum tempo que a nossa situação económica se tem vindo a degradar. Também é verdade que alguns analistas económicos alertaram, em devido tempo, para o facto de estarmos a caminhar para uma situação insustentável, não apenas pela política despesista mas também e sobretudo pela ausência de reformas estruturais. A crise dos mercados internacionais é um facto. Finalmente, a queda da bolsa já era uma evidência antes da reforma fiscal. Então se muitos dos facto já eram conhecidos, porquê só agora esta depressão colectiva nacional? Aquilo que originou a mudança na confiança dos Portugueses prende-se mais com o alargamento da base de críticos do que com outros factos. Foi possível ouvir os mesmos analistas, mas também os empresários, a Sedes, o Presidente da República, a Oposição, o Partido que está no poder e até o Governo (?) dizer que não podíamos continuar como estávamos.

Para além de todas as críticas e da sua origem, o que afectou mais a credibilidade do Governo junto da opinião pública tem origem na força com que os media passaram a tratar a situação. Nas últimas semanas, não há jornal, nem editorial nem comentário diário ou semanal, nem artigo económico que não deixe de evidenciar como estamos mal e sobretudo porque é que o futuro é negro.

O futuro é negro porque os cortes orçamentais não são mais do que uma pequena parte do total que terá de ser tratado a breve prazo; o futuro é negro porque a remodelação governamental não é o que devia ser; o futuro é negro porque a oposição não é credível; o futuro é negro porque aqueles que poderiam “salvar” a situação não estão disponíveis para governar; o futuro é negro porque há uma crise na Argentina que vai afectar todo o mercado na Península Ibérica. Tudo contribui, não tanto para uma histeria colectiva porque o povo é sereno, mas para uma perigosa melancolia nacional.

Ora, esta “depressão” ou crise de consciência não vai ajudar o país, bem pelo contrário. Se o clima negativo se prolongar, ele terá um efeito no funcionamento das instituições, na economia em geral e na nossa vida particular.

Devemos encarar a situação como encaramos uma situação idêntica na vida de uma empresa ou até na vida pessoal. Primeiro é necessário falar com clareza e sem esconder os factos; há uma crise, as suas causas são conhecidas, Depois é necessário indicar qual o tratamento adequado para essa crise. E finalmente aplicar o tratamento, movendo todos os intervenientes no mesmo sentido. Os Portugueses já entenderam qual é a situação.

Os Portugueses são capazes de se mobilizar por uma boa causa, mais a mais quando se trata do seu futuro. Agora “só falta” quem os consiga mobilizar e liderar em direcção ao próximo desafio.

Domingos Soares de Oliveira
Capgemini Portugal