O Desafio do Euro - Gonçalo Nuno de Seixas

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O Euro é, desde 1 de Janeiro de 1999, a moeda oficial da República Portuguesa, como dos outros dez Estados participantes da terceira fase da União Económica e Monetária, a que se juntará a Grécia em 2002.

Este facto incontroverso é, contudo e curiosamente, objecto de notável falta de reconhecimento pelo cidadão e, sobretudo, de reflexão e ponderação genuina pela grande maioria das empresas do nosso país - constatação suportada por opiniões e dados recolhidos junto destas e condensados no estudo conduzido pela Cap Gemini Ernst & Young e pela AMUE (Association for the Monetary Union of Europe).


A inexorável aproximação da data em que, com a sua circulação física, se produzirá a plenitude dos efeitos da adopção da moeda única, é pretexto bastante para que atentemos nos factos e consideremos as suas implicações e impactos, orientando o pensamento e conduzindo a acção que, mesmo se tardia, deve traduzir opções de gestão.

O euro é a face visível de um novo estágio no progresso da construção Europeia, iniciado no pós-guerra e que vê o desenho da sua expressão económica culminar na União Económica e Monetária. Pode argumentar-se que este projecto suporta, além dos desígnios mais evidentes e directamente associáveis a um tal exercício, um plano maior de construção de comunidade, de integração, de unificação no plano político e, para tanto, da sua base social.

É nesta vertente que, excedendo o seu papel de reserva de valor e de suporte às transacções num mercado que se pretende único e progressivamente integrado, o Euro deverá constituir um primeiro e fundamental elemento de pertença, de identidade comum, de uma cidadania que se estende por sobre as fronteiras nacionais, reconhecendo-se que outros como a história, a língua e a cultura constituem diferenças que importa defender e valorizar enquanto garantias de diversidade, riqueza e fertilidade.

E é também ao nível do cidadão, do indivíduo, que se produzem alguns dos impactos de maior complexidade e, na medida inversa, mais negligenciados até hoje: a necessidade de aplicar exaustivamente factores de conversão com alguma complexidade, de se adaptar a variações reais nos preços e, sobretudo, de construir num período relativamente curto uma escala de valores significativa e totalmente nova, lidando agora com ordens de grandeza e sub-unidades estranhas às escalas interiorizadas ao longo de toda a sua vida.

Este fenómeno é parte importante de um significativo impacto, com particular relevância para a condução dos negócios e a formulação de abordagens: uma expectável retracção do consumo privado.
Este efeito provocou no Reino Unido, por ocasião da decimalização da Libra, uma substancial variação temporária na despesa privada - com a inevitável perda na formação do Produto - além de uma alteração permanente em alguns hábitos de consumo: com característico humor, o fenómeno recebeu o nome de “F.U.D.” - Fear, Uncertainty and Doubt. Tratava-se de uma simples alteração na subdivisão da Libra, que manteve a unidade e o valor externo, o que nos deveria alertar para a necessidade de antecipação e gestão dos efeitos, de extensão potencialmente superior ainda, dada a muito maior complexidade e ramificações da adopção desta nova moeda única. Se ao nível do cidadão, o relatório de especialidade encomendado pela Comissão Europeia diagnostica um estado colectivo de “stress pós-traumático”, ao nível das empresas e da administração pública não se oferece à primeira vista um cenário mais pacificador do espírito. Com brava indiferença ou simplista confiança, a maioria das organizações que sobre o tema já se debruçou circunscreveu a sua análise e actuação ao âmbito restrito dos sistemas de informação. Quem não ouviu já afirmar que, por ter um sistema informático multi-moeda ou a aplicação tal e tal, se tem o tema por ultrapassado e a resolução do problema à distância de uma tecla de “Enter”?

Não sendo certamente profeta de qualquer apocalipse anunciado - que não poderia ser por não haver sinal de catástrofe - sinto alguma preocupação ou, talvez, consternação, por ver oportunidades que se deixou por explorar, pretextos que não foram utilizados, catalizadores de mudança que ficaram por activar, expectativas que foram deixadas sem satisfação.

O euro tem essa característica: não alterando nada, poucos efeitos directos produzindo para lá dos que se manifestam nos mercados financeiros, a moeda única é elemento de catalização, aceleração e potenciação de grandes tendências que já se manifestavam ou entreviam, além de outros tantos efeitos que, ainda indirectamente, produz ao nível das expectativas que suscita e de que está na base. Do conjunto de factores e elementos dinâmicos que assim se vêem perturbados, resulta um amplo leque de oportunidades e desafios. A participação da União Económica e Monetária - expressão em que sublinharia “económica” - não é opcional. A exploração das oportunidades que oferece e a condução da reacção aos desafios, é.

Mesmo ao nível do poder público (na definição por cada um dos Estados membros das orientações relevantes para a adopção desta nova moeda, em aplicação do princípio comunitário da subsidieridade) pode constatar-se este facto, de que resultam diferenças como as que se observam entre as determinações do governo alemão e as adoptadas pelo governo português.

No território desta nossa Eurolândia surgiram múltiplos estudos, iniciativas, experiências e projectos. Sem excepção, mostram-nos a extensão dos efeitos da adopção da nova moeda em ramificações que vão desde as Salas dos Conselhos de Administração até aos balcões de atendimento, às oficinas e às caixas registadoras. E se muitos destes se limitam ao tempo que demore a efectiva adaptação ao euro, outros há que se prolongam e excedem esse período também indefinido que a familiarização requer e a que a dupla-circulação “oblige”: todos os que têm relação com a estruturação de mercados, com a alteração de factores de competitividade, com a organização e dinâmica da concorrência, com a própria definição do negócio, com tudo o que define o nosso panorama competitivo.

Dos primeiros, são exemplo os estudos de eficácia de formulações de price-points, de mensagens promocionais, de aumento da morosidade nas transacções, de tempos de espera para atendimento em estações ou de variação do volume de dúvidas a esclarecer pelos postos de atendimentos, de variação das dotações de caixa e necessidades logísticas associadas, estudo de modalidades de conversão e garantia de consistência de dados históricos, registos correntes e suportes à decisão, planos de continuidade no registo de transacções no período de transição, gestão de trocos...

Na segunda categoria de elementos - mais ampla e incerta - contam-se aspectos fundamentais como a construção da oferta, a definição de produtos e serviços, a revisão de unidades de referência, a análise da dinâmica concorrencial e o surgimento de concorrentes agressivos e não-tradicionais, o estabelecimento e consolidação de novos mercados directores, o desenho de novas cadeias e modalidades de aprovisionamento, a delimitação do âmbito e território de operação, a exploração de formatos e meios de contacto... A definição de Estratégia.

Pode, no momento actual, parecer já desajustada ou não aplicável a referência a pensamento estratégico perante um facto que se apresenta tão próximo. Perante um cenário que, na verdade está em edificação há já dois anos!

Propõe-se uma visão diferente: só não vale a pena conceber estratégia quando já seja demasiado tarde para o fazer, e isso só acontece quando a organização cessa a sua actividade. Não há regras mágicas ou estratégias de sucesso garantido. Há a necessidade de pensar uma. E se mais não fosse, o euro seria um bom pretexto para o fazer hoje.

Neste âmbito ou com este carácter podemos também já encarar os próprios elementos técnicos, os meios e dispositivos de suporte ao negócio que devem assegurar a operacionalidade da organização, a adaptabilidade a este novo ambiente e a prossecução da estratégia pensada. Que devem já amanhã garantir o funcionamento fluido e estável de uma organização que transmite aos seus clientes conforto, conveniência e segurança num momento de incerteza e dúvida.

Elemento fundamental neste propósito é a variável-chave na diferenciação das organizações, o seu efectivo humano e a sua capacidade e habilitação. Os responsáveis pela condução e gestão, como aqueles que devem veicular a imagem da organização junto dos seus clientes, assegurar o contacto com estes e a interlocução.

A preparação para o euro não é uma simples questão de conformidade tecnológica, um problema que a informática resolverá ou resolveu já. É uma condição que se atinge pelo exercício de opções, pelo desenvolvimento de orientações, pelo planeamento e pela acção baseados no estudo profundo do impacto desta variável. A todos, porque estamos todos juntos neste percurso, desejo uma caminhada segura.

Gonçalo Nuno de Seixas
Capgemini Portugal