Amadurecimento da Nova Economia - Cláudio Faria

Está em: Imprensa

Nos últimos anos assistimos a um fantástico crescimento dos investimentos voltados para o desenvolvimento de negócios via web. A este movimento seguiu-se, recentemente, uma retracção provocada pela queda dos mercados financeiros ligados ao sector, que gerou grandes dúvidas quanto ao futuro deste novo ciclo económico, a ‘nova economia’. Provavelmente poucos temas terão sido tão discutidos, analisados e terão gerado tantas publicações, artigos de opinião e comentários quanto a ‘nova economia’.

De facto, o potencial de negócios com o qual todos nos deparamos é enorme. O crescimento, a um ritmo nunca antes observado, do número de pessoas e organizações ligadas à Internet é um desafio para explorar as novas oportunidades.

Contudo verificámos uma redução significativa dos investimentos nesta área. Alguns dirão que afinal a ‘nova economia’ não terá sido mais do que fogo de palha, outros afirmarão que não tem a sustentabilidade esperada. Penso que o que assistimos foi a um amadurecimento da actividade ligada a ‘nova economia’ muito antes do previsto.

Vários novos modelos de negócio foram desenvolvidos, alguns inovadores e com grande sucesso e outros tantos serviram apenas como experiência. Mas o acelerado ritmo com que as empresas testaram novos modelos de negócio serviu-nos para melhor entender as reacções das pessoas e organizações perante esta ‘nova economia’. No início tudo se tentava com o objectivo de vender através da web. Actualmente, mais do que vender e obter os resultados imediatos da transacção efectuada, os modelos procuram fortalecer as relações com clientes e parceiros utilizando a web como canal de contacto.

Seja na ‘nova’ ou na economia tradicional os bons negócios dependem de decisões e acções rápidas as quais dependem da velocidade com que as pessoas e organizações estabelecem os seus contactos. Mais do que tudo, a regra neste novo ambiente em que vivemos é estar conectado.

Estamos numa época em que os meios que as empresas disponibilizam aos seus parceiros e clientes para interagirem com a sua organização, é ainda um factor de vantagem competitiva. Ao escolhermos um banco procuraremos sempre aquele com o qual nos podemos conectar a partir de qualquer ponto e realizar as nossas transacções a qualquer momento (nem todos têm esta facilidade hoje em dia!). No futuro, a facilidade de conexão e realização de transacções deixará de ser uma vantagem para ser um pré-requisito para competir e estar no jogo.

As empresas dispõem hoje de várias soluções para reformulação completa dos meios de interacção com os seus clientes e parceiros abrangendo as práticas mais actuais de CRM (Customer Relationship Management) e de novos sistemas que permitem extrair os benefícios de uma melhor gestão da cadeia de fornecimento (Supply Chain Management).

A boa notícia é que a integração com os sistemas de suporte aos processos internos, normalmente tratados por um ERP, é cada vez mais um aspecto incorporado de raiz no desenvolvimento destas soluções. Na última semana assistimos a duas grandes mostras na Europa: em Lisboa a SAP realizou o SAPPHIRE, evento que contou com mais de oito mil participantes e, em Cannes, a Siebel Systems realizou o Siebel User Week. Quer num como noutro evento pudemos observar o state of the art em soluções de e-business.

A não tão boa notícia é que o alto grau de integração exigido para se explorar eficazmente estas soluções obriga as empresas a realizarem elevados investimentos para implementá-las. Mas falamos de investimentos em que toda empresa tem sempre em conta o retorno previsto.

A nossa experiência em apoiar várias organizações na implementação de soluções de e-business permite-nos afirmar que dificilmente o retorno esperado dos investimentos realizados nesta área serão alcançados se as vertentes Processos e Pessoas não forem devidamente endereçadas. Pode parecer mais um chavão vindo de um consultor, mas se analisarmos o ambiente actual iremos verificar que nunca terá sido tão apropriado.

Uma organização conectada significa que as pessoas que a integram têm os meios e a capacidade de interagir com outras organizações que compõem o seu ‘ecossistema’ (para usar mais um termo da moda) de forma eficiente e ao nível das exigências impostas pelos seus parceiros. A título de exemplo, convido o leitor a reflectir sobre as mudanças provocadas nas áreas de processos de compras e de recursos humanos das organizações pelas novas soluções de e-procurement e e-RH.

Felizmente muitas organizações estão atentas a estes aspectos e, ainda que o amadurecimento desta nova economia esteja apenas no seu início, estão a realizar projectos de ponta, redesenhando os seus processos, reformulando as suas Intranets, e preparando as suas pessoas para as novas exigências. Mas outras organizações, que assim como no passado recente vangloriavam-se de ter implementado complexos sistemas de EDI para receber as encomendas dos seus clientes mas continuaram a introduzi-las manualmente nos seus sistemas de gestão de encomendas, poderão nunca ver o retorno dos seus investimentos.

Cláudio Faria
Capgemini Portugal