A Crise é Bem Vinda? - Domingos Soares de Oliveira

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O conjunto de empresas de Software e Serviços que operam no mercado nacional têm vindo ao longo dos últimos 20 anos a demonstrar uma pujança digna de realce. A média de crescimento das receitas situou-se num valor acima dos 20% e nalguns casos com crescimentos perto dos 50%.
No entanto, se do ponto de vista do volume de negócios o panorama é na generalidade interessante, já uma análise mais profunda sobre os resultados apresentados pelas principais empresas levanta alguma inquietude.
Há empresas nacionais, algumas bastante conceituadas, que por motivos associados - aquilo que na gíria se designa por “campeonato da facturação” - apresentam lucros que do ponto de vista percentual, ficam claramente aquém da média das empresas internacionais que operam a nível global.
Esta debilidade pode ser contornada desde que a procura se mantenha elevada, o que tem sido verdade em Portugal na última década. Mas, face ao cenário de recessão que paira no ar e que começa cada vez mais a tornar-se uma realidade incontornável, face a um abrandamento no investimento dos principais clientes, seja no Sector Bancário, seja no Sector de Telecomunicações, face a uma concorrência que é cada vez mais feroz e que poderá apostar na guerra de preços para conquistar quota de mercado, que espaço terão estas empresas para reagir à crise que se advinha?
No primeiro trimestre deste ano, a par do anúncio dos resultados de 2000, alguns já razoavelmente decepcionantes, assistimos também a um conjunto de declarações sobre as previsões para o corrente ano, e é no mínimo interessante constatar que os volumes estimados de crescimento continuam na mesma ordem de grandeza.
Mas quando comparamos estas projecções com as estimativas nos mercados internacionais, já ficamos um pouco mais preocupados; o mercado americano deve crescer apenas 6%, o mercado europeu 11% e dentro deste, um dos países que apresenta projecções de crescimento mais elevadas é o francês com 15%. E quando analisamos o crescimento por tipo de serviços, verificamos que é fundamentalmente a componente de consultoria que mais cresce, em detrimento sobretudo do desenvolvimento na componente web.
Este facto é reforçado pela análise do Banco SG Cowen que estima que das 35 grandes agências web europeias, apenas 5 vão conseguir sobreviver e assumir uma posição ganhadora.
Assim, há que prever que o nosso mercado vai sofrer algumas transformações este ano. Algumas empresas vão pura e simplesmente desaparecer. Das empresas que anunciaram grandes crescimentos para 2001, várias não poderão sustentá-los porque por um lado a procura vai baixar e por outro vai ser mais exigente.
Por outro lado, as empresas com mais capacidade de produzir “valor acrescentado” para os seus clientes vão sair vencedoras no final do ano.
Periodos de crise obrigam a que se encontrem novas formas de funcionamento que permitam melhorar a produtividade e baixar custos.
Esta tomada de consciência e as consequentes acções que forem tomadas, podem constituir uma boa alavanca para que, pelo menos a nível do sector privado, se produzam as transformações que tanta faltam fazem para relançar Portugal.
Afinal, para as melhores empresas do Sector e para os seus Clientes, a crise pode ser bem vinda.

Domingos Soares de Oliveira
Capgemini Portugal