Para Além do Razoável - Domingos Soares de Oliveira

Está em: Imprensa

No final de 1998, participei num programa do Insead denominado “Advanced Management Program”. Um dos professores com mais sentido de humor explicou-nos de forma simplista que o AMP era um programa para gestores que já não tinham tempo de fazer um MBA, mas ainda estavam demasiado longe da reforma.

Na realidade é muito mais do que isso e para a maioria dos participantes, estes 30 dias trouxeram uma formação e uma vivência que se transformaram num marco importante na sua vida profissional.

Para além das cadeiras normais ligadas a Estratégia, Economia ou Gestão, tivemos o privilégio de ter duas abordagens um pouco diferentes, uma sobre O Custo do Sucesso, e outra dedicada a Saúde, mas aplicadas a gestores e quadros que se esforçam “para além do razoável”.

Em ambos os casos, estivemos a trabalhar muito sobre o equilíbrio pessoal . Com a primeira disciplina trabalhámos mais o conteúdo, com a segunda aprendemos a melhorar a forma.

Sobre a saúde, uma das fórmulas mais interessantes que retive foi a dos 5 W’s: Walk ( 15 minutos de marcha por dia), Water (2 a 3 litros de água por dia), Wine (1,5 copos de vinho tinto por refeição - não inclui o pequeno almoço), Wind (respirar com um tempo de expiração longo) e Workout cujo significado deixo ao critério de cada um.

Sobre o custo do sucesso é fácil perceber a quem se aplica; é cada maior o número de gestores e quadros que, de forma continuada, trabalham 12, 14 ou mesmo 16 horas e muitas vezes ainda passam os seus fins de semana a resolver os “trabalhos de casa”.


Na esmagadora maioria dos casos, nem se trata de qualquer imposição da entidade patronal, nem a este esforço corresponde qualquer remuneração acrescida.

Regra geral, este esforço “para além do razoável”, corresponde a uma opção própria, muitas vezes tomada de forma inconsciente. É um estilo de vida, ou melhor de trabalho, que se vai criando e do qual é difícil sair. E não serão certamente as inspecções de trabalho que vão acabar com ele. Afinal, nem com esforços “para além do razoável” seria possível controlar uma parte minimamente representativa do tecido empresarial e mesmo que fosse, a disponibilidade da Internet em casa, a possibilidade de ligação ao escritório a partir do PC pessoal, o telemóvel/Wap em qualquer local, o computador portátil, ou apenas a pasta (que em pouco tempo se transforma em instrumento de levantamento de pesos à conta dos dossiers, relatórios e outros documentos), permitem que qualquer quadro empenhado “para além do razoável”, trabalhe quanto tempo quiser, onde quiser.

O que é curioso é que estes mesmos gestores e quadros que tanto se dedicam ao trabalho, reconhecem que esta opção é feita em detrimento da família, da saúde, do lazer, dos amigos, da cultura, enfim, de um conjunto de valores que em teoria são para eles fundamentais.

São estes mesmos gestores e quadros que reconhecem também que esta opção em detrimento dos seus valores lhes traz alguns desequilíbrios nas suas vidas, que podem ser emocionais, afectivos, físicos ou de qualquer outro tipo.

E a quadratura do círculo é conseguida quando estes desequilíbrios acabam por afectar o desempenho profissional, obrigando a um esforço adicional, “para além do razoável”.

Significa isto que devemos todos ir para casa às 18:00 de hoje em diante? Provavelmente não, até porque podemos ser confrontados com o facto de seja quem for que esteja em casa - Mulher, marido, filhos, empregada ou o cão - não saber o que fazer connosco a essa hora.

No entanto acredito que devemos a nós próprios e a todos os que connosco convivem, em casa ou no trabalho, uma reflexão sobre se o custo do sucesso tem de ser tão elevado. E da mesma forma que somos chamados na nossa profissão a melhorar os resultados com um controlo dos custos, devemos ser capazes de aplicar a mesma fórmula na nossa vida pessoal.

Domingos Soares de Oliveira
Capgemini Portugal