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Ao longo da última década um número alargado de empresas portuguesas investiu fortemente na obtenção de uma Certificação de Qualidade ISO 9001.
Quem já passou pelo processo pôde constatar o significativo esforço que esta Certificação implica, quer financeiro, quer temporal, quer sobretudo em envolvimento por partes dos elementos da Direcção da empresa. Hoje, há mais de um milhar de companhias ou institutos que se orgulham de ter conseguido essa Certificação.
É interessante reflectir sobre as razões que levaram as empresas a realizar esse esforço e quais as implicações dessa mesma Certificação..
Para
alguns, a justificação está na possibilidade de utilização do simbolo “Q” nos
seus documentos, na ostentação da bandeira amarelada ao lado das bandeiras
Nacional e da União Europeia e na colocação da Certificação numa bela moldura
em
lugar de destaque na Sala de Reuniões.
Para a esmagadora maioria, a
razão para o investimento vai mais longe. Por um lado não há que esconder que
se
trata de um bom instrumento de marketing. Por outro, é uma garantia adicional
para clientes, fornecedores e outras entidades com as quais a empresa se
relaciona. Há ainda situações em que a obtenção da Certificação é a única forma
de aceder a determinados Clientes.
Alguns, e esta é a minha
opinião, consideram também que o investimento na Qualidade produz ganhos de
produtividade e consequentemente melhores resultados financeiros.
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Não fazer bem à primeira tem consequências económicas directas e indirectas que uma empresa não pode suportar repetidamente. No entanto, houve sempre dois aspectos que me fizeram pensar sobre os paradoxos possíveis por detrás de uma Certificação.
Em primeiro lugar é possível uma empresa obter a Certificação para um processo cujo resultado é mau, como por exemplo para o fabrico de coletes de salvação em chumbo. Nada pode impedir que uma empresa com este objectivo obtenha a Certificação do seu processo de fabrico, e corremos o risco de ver clientes a adquirir o produto de tal empresa só porque a mesma tem o carimbo com o famoso “Q”. Neste caso será o normal funcionamento do mercado (e não os responsáveis dos Institutos que produzem as Certificações) que conseguirá impedir tal empresa de continuar a fabricar e vender um produto com estas características.
O segundo aspecto prende-se com o cumprimento da legislação. Também a título de exemplo, uma empresa pode obter a Certificação do seu processo de fabrico recorrendo a mão de obra infantil. Ou não respeitando as normas de saúde e higiene no local de trabalho. Ou recorrendo a formas de pagamento aos trabalhadores totalmente ilegais como os plafonds de despesas, os falsos recibos verdes ou mesmo para situações de cartões de crédito para todo e qualquer uso.
Para evitar estas incoerências, está em preparação pelas entidades reguladoras uma salutar mudança nos processos ligados à obtenção da Certificação. No fundo, a Certificação passa a estar dependente do cumprimento da legislação..
Desta forma será possível corrigir mais algumas injustiças nas práticas de algumas empresas. Resta esperar que os responsáveis pelas auditorias de Qualidade tenham os meios técnicos e humanos para avaliar o cumprimento das várias legislações. Porque caso contrário, o que passa a existir é uma norma correcta sem possiblidade de controlo, Era como se existissem leis que se aplicam às empresas e que as inspecções não tivessem meios para controlar as fraudes. E que quem cumpre a lei fosse prejudicado em relação aos seus concorrentes incumpridores. Algo que não faz sentido e que uma auditoria de Qualidade não deixaria passar.
Domingos Soares de Oliveira
Capgemini Portugal
