Salários Brutos Virtuais - Domingos Soares de Oliveira

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O Sector das Tecnologias de Informação sempre se caracterizou por crescimentos muito significativos, superiores aos registados nas áreas de negócio mais tradicionais. A percepção geral é que, dentro deste Sector, é a área de Consultoria e Serviços em Sistemas de Informação que ocupa o primeiro, o segundo e até o terceiro lugar do pódio.

Ora, a Market Report, uma publicação nacional dedicada à análise deste Sector, evidenciava em Julho deste ano apenas 14 empresas que, facturando mais de cinco milhões de contos, tinham tido em 1999 um crescimento superior a 20%.
Analisando essas 14 empresas, mais de 50% têm a distribuição de produtos como principal actividade, representando os serviços uma fatia pequena da sua actividade. Mais interessante ainda é o facto de só 3 dessas 14 empresas terem a Consultoria e Serviços em Sistemas de Informação como actividade principal.

Penso que a diferença entre a percepção do mercado sobre o “eldorado” e a realidade demonstrada pelos números prende-se com um distanciamento cada vez maior entre a procura e a oferta.
A maior parte das empresas do Sector sabe que o número de oportunidades é suficientemente grande para justificar os investimentos nacionais e internacionais que se têm verificado no nosso país. Por outro lado, as empresas têm sido confrontadas com uma escassez de recursos que tende a aumentar.

Num estudo recente realizado pela Universidade do Minho, verificou-se que o número de finalistas de cursos com relevância para o Sector é insuficiente para as necessidades das empresas informáticas, das consultoras, de outras multinacionais, das start-ups, ou das empresas tradicionais. Assim, para as empresas, surgem várias alternativas; ou não fazer nada e deixar que alguém (um concorrente?) resolva a situação, ou investir fortemente em contratações (mesmo fora do mercado português) com argumentos associados a desafios profissionais estimulantes, ou apostar na formação, complementando o trabalho das universidades, ou ainda a alternativa de atracção e retenção pelo salário mais elevado. Em relação a esta última alternativa, há que aceitar que, em teoria, ela se enquadra dentro dos mecanismos normais de funcionamento do mercado.



Só podem pagar melhores salários as empresas que conseguem gerir melhor os seus recursos, obtendo junto dos seus clientes o melhor preço que lhes permita não sacrificar as suas margens. Essa é a teoria. Infelizmente, em vários casos que desvirtuam a sã concorrência, a prática tem sido outra. Há empresas que pagam mais, mas apenas no salário líquido. Até chegar a esse valor, vale (quase) tudo, desde utilização indiscriminada de documentos de despesas, passando pela utilização abusiva de subsídios de deslocação e estadias, ofertas de viagens à família, utilização para todo e qualquer fim do cartão de crédito, até mecanismos mais elaborados como pagamentos de salários complementados com recibos verdes com a própria empresa ou com empresas do grupo.

Uma coisa é certa, parece que aqui, nem ceu é o limite. Porque o fenómeno abrange todo o tipo de empresas, sejam elas multinacionais, cotadas em bolsa ou start-ups. Face à ausência de auditorias e inspecções por parte das autoridades competentes que identifiquem estas situações e que punam os faltosos, seriamos levados a concluir que o crime compensa e que só através de denúncias específicas e concretas seria possível evitar o alastramento da situação.

Felizmente, tenho observado um indicador que me permite perspectivar outro caminho. Os colaboradores das empresas cumpridoras começam a manifestar orgulho no respeito da legislação por parte da entidade empregadora. E transmitem esse sentimento ao mercado. À imagem do que se passou no caso dos alunos de Guimarães, e das conclusões do mesmo processo, podemos ter esperança que talvez esteja a chegar ao fim o tempo da esperteza saloia. Sem ofensa para os saloios.

Domingos Soares de Oliveira
Capgemini Portugal