O Outro Lado do Euro - Domingos Soares de Oliveira

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1 de Janeiro de 2002 é a data em que a introdução do Euro será mais visível para os cidadãos europeus e para a empresas comunitárias. Em termos práticos, tal significa que faltam menos de 500 dias para que 300 milhões de consumidores comecem a utilizar moedas e notas de Euros. E faltam cerca de 300 dias úteis para que qualquer empresa comunitária, pequena ou grande, tenha obrigatoriamente de trabalhar em Euros.

Considerando estes prazos é interessante analisar o grau de preparação dos consumidores e das empresas em relação a este processo de mudança.
No primeiro caso, uma recente sondagem elaborada pela Comissão Europeia mostra que os portugueses são os cidadãos que revelam maior desconhecimento sobre o Euro e isto apesar de termos já assistido no ano passado a um esforço de informação junto da opinião pública.
Naturalmente, à medida que a data de Dezembro de 2001 se for aproximando, as campanhas publicitárias serão mais fortes e considerando que até a Igreja Católica estuda a possibilidade de dar o seu contributo para o esclarecimento dos seus fieis, podemos acreditar que o problema poderá ser significativamente reduzido.

Em relação às empresas, a situação é tanto ou mais preocupante em face dos sinais (ou a falta deles) de rigor com que as companhias portuguesas estão a encarar o Euro.
Primeiro que tudo foi a própria Comissão Europeia que em Julho deste ano lançou um sério aviso à comunidade empresarial sobre as consequências de um possível atraso na preparação para o Euro.
Por outro lado, num inquérito que a Cap Gemini Ernst & Young lançou a mil empresas portuguesas sobre o tema, os resultados foram decepcionantes, quer no grau de (des)preocupação demonstrado, quer nas comparações dos resultados realizadas com estudos semelhantes noutros países.

Os problemas associados ao Euro são vistos como algo de especificamente informático e cuja resolução pode ser encarada apenas no segundo semestre de 2001. É verdade que uma parte importante dos problemas estão associados aos Sistemas de Informação. Apenas como exemplos, há que prever a introdução do símbolo do Euro em consolas ou em impressoras, ou realizar alterações num elevado número de programas por força do número de casas decimais utilizado nos arredondamentos.

Mas serão problemas informáticos as questões associadas a oportunidades de negócio geradas pelo efeito conjunto do e-commerce e do mercado de 300 milhões de habitantes que transaccionam numa mesma moeda? Ou os problemas de reconciliações entre informação anterior a 2002 e posterior? Ou a definição das regras de arredondamento? Ou ainda os planos de contingência?
Da nossa experiência internacional e nacional e dependendo da complexidade da organização, o esforço associado ao Euro representa um investimento de cerca de 12 a 18 meses. Este número pode ser contestado nomeadamente por todos aqueles que consideram que o problema do Ano 2000 (esse mesmo, o Y2K) nunca existiu ou foi empolado pelos consultores.
O inquérito atrás referido também revelou que algumas empresas consideram-se já preparadas e não realizaram investimentos dessa natureza, o que também poderia pôr em causa estas estimativas médias.

Não me cabe contestar, mais a mais não conhecendo a situação concreta dessas empresas. Mas a única forma de conhecer a realidade é fazer um levantamento exaustivo da situação actual. É pois urgente que as empresas portuguesas assumam que o problema do Euro não é um mal menor cuja identificação pode esperar pelo final de 2001. É que nessa altura, não haverá margem de manobra e, a existir solução, esta terá sempre um custo maior.

Domingos Soares de Oliveira
Capgemini Portugal