23/12/2003 - Desregulamentação do sector energético está numa encruzilhada de confiança

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O mais recente inquérito da Cap Gemini Ernst & Young colocou em evidência a preocupação dos fornecedores de energia quanto à data limite para a efectivação da livre concorrência retalhista, fixada na Europa para 2007.

De acordo com o inquérito, Delivering Value Through Competition, desenvolvido pela Cap Gemini Ernst & Young, a confiança na desregulamentação do sector energético, dos executivos de topo das grandes empresas mundiais fornecedoras de energia, decaiu nos últimos doze meses. O inquérito baseado em entrevistas a 130 executivos de topo revela que mais de 40% dos entrevistados estão agora menos optimistas quanto às perspectivas da desregulamentação.

Entre os pontos negativos identificados destacam-se as preocupações relacionadas com a intervenção de reguladores e governos nos mercados, a perda de liquidez em mercados grossistas e os desafios associados à implementação da desregulamentação.

Os executivos salientaram também a questão das falências das empresas fornecedoras de energia, causadas, em alguns casos, pela respectiva incapacidade de cumprir as novas regras reguladoras.

Como nota positiva, verificou-se que a indústria se adaptou à vida pós-Enron, apesar de uma quebra significativa nos graus de solvabilidade das empresas de utilities norte americanas. Acresce que o inquérito revela um apoio continuado a transacções com ferramentas de gestão de grande risco, ainda que a grande maioria acredite agora que apenas os modelos de transacção suportados por activos eram viáveis no sector.

Outro caso de sucesso é a forma como o mercado adoptou a concorrência retalhista para grandes clientes não residenciais: 90% dos inquiridos consideram isso importante ou muito importante para a criação de valor. Permanecem dúvidas quanto à implementação da concorrência retalhista entre os clientes residenciais, sendo que apenas 55% acreditam que esta tem potencial para ser importante ou muito importante para a criação de valor. Todavia, vários mercados estão actualmente comprometidos com a implementação da livre concorrência residencial, incluindo todos os países da União Europeia, até 2007 sendo que o desafio reside em desenhar e fornecer as soluções adequadas. Os inquiridos consideram que as abordagens baseadas em hub para a gestão de dados de clientes são uma base mais concreta para a concorrência sustentável e com uma boa relação custo-eficácia.

No que respeita a operar em mercados concorrenciais, o inquérito salientou que o preço é de longe o factor mais importante, tanto para clientes residenciais como para não residenciais. O serviço a clientes é também importante para os clientes retalhistas, mas o seu maior valor é como ferramenta para reter clientes existentes, não para adquirir novos. Nesta área poucos inquiridos prevêm confiar no crescimento orgânico, focalizando-se antes em fusões e aquisições. A pesquisa levanta ainda questões sobre a diversificação como modelo de concorrência: segundo os inquiridos, enquanto as ofertas “dual fuel” foram razoavelmente bem sucedidas, os serviços e produtos de valor acrescentado apresentaram, na generalidade, resultados desapontadores à data.

Quase todos os inquiridos reconhecem que um mercado grossista eficaz é crítico para o sucesso futuro. Este tem de dar sinais claros que permitam a concretização de decisões de equilíbrio a curto prazo e, a longo prazo, de decisões de investimento ao nível da produção ou da rede. O princípio subjacente ao desenho normalizado do mercado tem forte apoio, acreditando 97% dos inquiridos que a normalização é importante para o futuro desenvolvimento dos mercados grossistas. Contudo, na América do Norte, permanece o debate sobre os aspectos práticos da implementação do desenho actual.

O futuro

O inquérito apresenta uma perspectiva interessante sobre a forma futura da indústria:

Consolidação - confrontados com um misto de pressão reguladora e concorrencial no sentido de melhorar a eficiência, muitos inquiridos sentem que emergirá um número mais pequeno de grandes players e “marcas” . O desafio para os reguladores está em equilibrar esta tendência, e os benefícios a ela associados, com a emergência de oligopólios que, em última instância, limitam a concorrência. O desafio para os players deste mercado é produzir valor através deste processo de consolidação.

Integração vertical - as respostas ao inquérito apontam para a tendência natural dos players em mercados concorrenciais combinarem produção ou aquisição de gás a montante, com o negócio de retalho a jusante. As preocupações reguladoras sobre os efeitos no mercado desta integração parecem sobrevalorizadas, devendo a preocupação incidir mais no número e dimensão comparativa dos concorrentes em cada mercado.

Separação de serviços - existe uma visão clara que a separação dos segmentos mais relevantes da cadeia de valor é importante, mas também que a separação de elementos funcionais tais como a leitura de contadores é contraprodutiva. As respostas ao inquérito sugerem ainda que a separação de serviços não está ainda a ser implementada de forma eficaz. A perspectiva da Cap Gemini Ernst & Young é que uma separação de serviços eficaz não exige separação de propriedade embora seja necessária uma separação clara na gestão de custos, contratos, contabilidade, pessoas, marcas e informação.

Interpretando os resultados do inquérito Jayesh Parmar, Vice-Presidente, Utilities Market Restructuring, Cap Gemini Ernst & Young, salientou “constatámos um sentido de realismo crescente à medida que a escala de transformação e as respectivas questões de negócio emergem em todo o mundo. A queda de confiança revelada pelo nosso inquérito está ligada a esta consciencialização e a uma crescente compreensão dos desafios vindouros. Contudo, os objectivos governamentais e reguladores são claros, a desregulamentação vai continuar e a focalização deve incidir agora na prestação concorrencial e na entrega de valor aos clientes”.